A banalização do eu te amo

4min. de leitura

No sacolejar do ônibus Caio é surpreendido pela luminosidade da tela do celular da poltrona ao lado. Disfarçadamente ele repara na conversa:



– Alô?! Oi, tu está no supermercado? Hum, então não vou descer na rodoviária. Porque dessa voz? Alguma coisa errada? Sei, outra sexta-feira qualquer. Daqui a pouco já estou chegando e conversamos melhor, certo?! Beijo e fica bem.

Então disparou, ainda que sem saber por quê:

– Com licença, senhor, você falava com sua esposa?
– Sim, por quê?
– E você ainda a ama?
– Claro, desde o dia em que nos conhecemos há doze anos, e contando.
– E porque não disse “eu te amo” no fim da ligação ao invés dum “fica bem”?
– Pra não banalizar.
– Banalizar?
– Dizer a todo instante que ama sua companheira acaba desgastando o sentido da palavra. Vulgarizando o amor. É como se houvesse um número limitado para empregar o termo. Ah, e não há substituição. Peça única. Coisa rara que não encontramos em qualquer esquina.


– Entendo, mas se você limita o uso da palavra, como ela sabe que você a ama?
– Com ações.
– Parece meio clichê.
– Se clichê fosse ruim, não faria tanto sucesso.
– É um ponto.
– Entenda: o “eu te amo” não pode ser usado fora de contexto, é preciso sagacidade para compreender o momento e então dispara-lo, porque sim!, é um disparo, pois sempre causa espanto a quem é endereçado o “eu te amo”.
– E deve causar espanto?
– Ela deve ser surpreendida. Caso contrario, qual o significado do “eu te amo” se já não causa reação alguma?
– Bem, perde o sentido.
– Bingo! E isso é banalizar o “eu te amo”.
– Hum. Interessante.
– O segredo é: use com moderação.
– Igual bebida alcoólica?
– Semelhante. O amor deve ser dosado. Mutuo. Compreendido. Mesmo assim você sempre corre o risco de ficar com uma ressaca danada.
– E o saldo é positivo? Vocês são felizes?
– É dogma particular, cada um tem sua fórmula e receita que dá certo – ou não. A minha é esta. Não quer dizer que funcione. Por ora, e espero que até o último de meus dias eu siga amando ela.

Quando se deram conta já estavam no supermercado, parada na qual o sujeito prometera a sua amada que lhe encontraria. Rapidamente se despediram, com um “fica bem” e o indivíduo desceu. Ficou cuidando o encontro de ambos: um abraço caloroso. E, através de leitura labial, reparou que o homem com quem conversara “disparou” para sua amada um sorridente “eu te amo”. A moça retribuiu com olhos brilhantes. Concordou que o momento era oportuno.

 


_______

Fonte: Escrito por Eduardo Rocha via Super Ela (Superela é uma plataforma capaz de fazer as mulheres mais felizes, tudo de especial sobre Amor, Sexo, Vida, Beleza e Estilo! Mais textos incríveis em: Superela.com)

Baixe o aplicativo do site O Segredo e acompanhe tudo de pertinho. Android ou IOS.

* Matéria atualizada em 27/12/2017 às 11:48






Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.