A língua de uma relação

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Desconfio – como desconfio de escritores sem livros espalhados pela casa – de casais que não possuem dialetos, tradições e fusos horários.



Que tipo de relação não tem um universo particular? As de plástico, só.

Relacionamentos verdadeiros são planetas que possuem língua, cacoetes e regras próprias; particularidades que costumam fazer sentido apenas aos envolvidos no laço, e que, ao resto do mundo, geralmente, assemelham-se a sintomas graves de loucura, blábláblá nonsense ou a breguices bem maiores do que Rider com pochete e viseira.

Meu namoro, por exemplo, tem neologismos que não existem em nenhum dicionário desta galáxia. Duvida? Outro dia, após dar uma breve afofada nos cabelos que cobrem a minha nuca, minha namorada disse: “Já está ‘ronando’!” Tem alguma ideia do que ela quis dizer com “ronando”? Claro que não, né? Estranho seria se tivesse. “Ronando”, em nosso planetinha, significa: “Está ficando parecido com o cabelo do Ronnie Von”. Outro peculiaridade linguística muito comum em meu namoro é o termo “ruk-ruk”. Sabe o que significa? Quer dar um chute? Não, não é “Tragam-me almôndegas” em tupi-guarani. “Ruk-Ruk” é a palavra que usamos quando queremos nos referir ao cafuné.


Além de neologismos, temos também tradições que, para nós, sem dúvida, fazem muito mais sentido do que o Natal. Exemplos? Sempre que pegamos um voo que sai de Cumbica, independente da hora, comemos um pedaço – ou oito! – de Pizza Hut. Ainda no campo gastronômico e junkie food, temos outro costume que seguimos à risca: quando vamos a outro país, sempre experimentamos as gordices do McDonald´s Local, mesmo que o local em questão seja mundialmente conhecido por oferecer comida de extrema qualidade.

E se você acha que as estranhices exclusivas à minha relação terminaram, prepare-se para a próxima confissão: cantamos uma música – que está mais para um jingle – e realizamos uma coreografia sucinta sempre que nos lembramos do Paso de los Toros, um refrigerante que só existe na Argentina e em alguns países da América do Sul. É ridículo, eu sei. Mas é algo que traz unicidade ao nosso mundinho. E, sinceramente, mais ridículo ainda é a relação que não tem identidade alguma, que só repete o que há de mais clichê em outras relações e nas cenas extremamente previsíveis das comédias românticas.

Quer saber? Não estou nem aí para a falta de sentido que as peculiaridades da minha relação fazem a você. Por quê? Porque as senhas, caretas e mímicas de um laço só precisam ser compreendidas por aqueles que estão envolvidos nele. Esqueça os conselhos da galera que só se relaciona pra depois postar retratos de fondues no Instagram, pois a decoração da sua relação só precisa ser entendida – e curtida – por você e pelo seu par. Se tem total sentido a vocês, e daí que parece totalmente abstrato e bizarro ao resto do mundo? E daí que, em vez de “amor”, você o chama de “Cabeça de Kiwi”. E daí que vocês se cumprimentam com um beijo no nariz seguido por um peteleco no umbigo? Se faz sentido a vocês, quem pode dizer que está errado ou que é loucura? Ninguém!


Não estou sugerindo que viva dentro de uma bolha e que despreze, totalmente, a linguagem que é falada fora do seu namoro, mas, se possível, não deixe de valorizar aquilo que torna a sua relação diferente de todas as outras. Saca? Dê valor à língua que vocês criaram depois de muita convivência e tesão assassinado a lambidas molhadas. Porque apesar de ela não significar nada ao resto do mundo, a vocês, ela é um inegável indício de que, com amor, construíram um planeta.

 

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Por: Ricardo Coiro – Via: Superela (Superela é uma plataforma capaz de fazer as mulheres mais felizes, tudo de especial sobre Amor, Sexo, Vida, Beleza e Estilo! Mais textos incríveis em: Superela.com)

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