Amar sem gostar ainda é amar…

4min. de leitura

Quando chega o fim mas o sentimento não vai embora nunca.



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Lembro-me de ver os raios de sol se arriscando a atravessar as frestas da janela, anunciando o novo dia. Já despertara havia alguns minutos, mas me mantive imóvel na cama. Ao meu lado, aquele corpo se esparramava na cama, respirando profunda e intensamente. Sentei e observei por algum tempo. Como suas costelas se expandiam e depois retornavam ao lugar de origem. As mãos jogadas no colchão num leve espasmo produzido pelo sono. O rosto sereno afogado no travesseiro, a boca ameaçando se abrir e balbuciar vogais de impossível entendimento. Podia acompanhar cada etapa da respiração, até sentir o ar quente saindo de suas narinas dilatadas.

Mas naquele momento, pela primeira vez, aquilo deixou de me interessar.


E passou a me interessar o que eu não mais poderia enxergar. O que teria nos levado até ali novamente, depois de tantos miúdos trocados, fagulhas, faíscas, indecências? Por qual motivo resolvemos pensar que tudo isso poderia ser deixado para trás num baú do passado que jamais seria reaberto, quando as feridas ainda doloridas nos fazia arder o presente? Não encontrei nenhum vestígio de racionalidade, apenas senti o coração apertando ao me fazer tais perguntas. Senti a culpa e o remorso tecerem uma teia repleta de pequenas tramas que se encaixavam em sua totalidade, assim como o tecido do lençol onde nos deitávamos. Para todas as minhas perguntas, houve apenas uma palavra que ecoava em minha mente: amor.

Entretanto, isso não bastava. O amor é vago de tão vasto. Plurais de significados para um sentimento tão singular. Eu insistia em olhar aquele corpo tão dormente quanto minhas certezas e achar que poderíamos existir em conjunto. Não mais. Foi-se o tempo, foram-se os sonhos. O sentimento mudou mas insistíamos em chamar de amor o que sabíamos não mais ser capaz de aturar. Acabamos nos tornando intragáveis, insuportáveis, notoriamente distintos. Tristemente silenciosos, fomos murchando até morrer por completo, cada um num canto. Nós todos sempre sabemos que tudo nessa vida flui como água doce, mas insistimos em fechar os olhos quando chega o fim.

Ali eu soube: era o fim.


Fim que tardou a ser aceito, mas que veio à tona feito chuva de verão. Lavou minha alma, despertou minhas esperanças. Precisava sair dali e dizer ao mundo todo que não poderia mais ficar: nós éramos diferentes e nossos defeitos não mais poderiam conviver em harmonia. Sei que não quero mais, repetia a mim mesma. Não há como. Duas feras enjauladas jamais vão se domesticar. Eu só não sabia como explicar, como justificar o fim sem ver o amor morrer.

Então me levantei devagar, e na ponta dos dedos caminhei até alcançar um papel. O bilhete, sucinto demais para deixar dúvidas, foi deixado ao lado da cama:

“Te amo, mas não gosto mais de você.”

E saí delicadamente, fechando a porta para nunca mais voltar.

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Por: Leticia Souto – Via: OBVIOUS

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