Amor, obrigado por tudo

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Eu sei que você, aos prantos, barrancos e soluços, pediu-me para sumir, para sempre, da sua vida. Sei, também, que você está extremamente magoada com as incontáveis besteiras que eu fiz. Porém, antes que eu evapore da agenda do seu celular, que eu aceite o surgimento de um doloroso abismo entre nós e que nos tornemos – um para o outro – apenas lembranças de domingos sem sono e de segundas-feiras cheias de olheiras, eu gostaria de agradecer, de coração, por tudo aquilo que vivemos, e, também, por aquilo que planejamos sob o seu edredom lilás, mas que, por minha culpa – e não das estrelas, da Dilma ou da tequila -, nunca viveremos.



Obrigado, de verdade, por ter comido, sem reclamar e com um valente sorriso no rosto, o meu bolo queimado, o meu peixe mais do que salgado, o meu risoto que até hoje deve estar grudado em algum prato e o meu mingau que, de tão doce, mataria até uma formiga não diabética.

Obrigado por ter ido comigo àquele show de rap e, principalmente, por não ter feito aquela cara de tédio que eu fazia quando não estava mais suportando o papo das suas amigas e quando assistíamos àquelas séries que eu odeio, mas que, se por algum milagre você me desse uma nova chance, eu provavelmente passaria a amar (mais do que amo doce de leite e menos do que amo você, óbvio).

Obrigado por não ter me deixado desistir de terminar o meu próximo livro e por ter compreendido, como poucas teriam feito, os sábados em que eu, graças à carteira vazia e à conta no vermelho, sugeri que não saíssemos de casa, que jantássemos cachorro-quente, que víssemos algo no Netflix e que bebêssemos algum daqueles vinhos que, para os enólogos, certamente, não passam de um chute no saco das papilas gustativas.


Obrigado por ter sido, sem dúvida alguma, a melhor companheira de viagem que alguém pode ter! Obrigado por ter babado em meu ombro quando a turbulência fez com que o avião sambasse entre as nuvens e enquanto eu, seriamente, pensava em deixar o ateísmo. Obrigado por não ter se importado com os colchões duros e com o cheiro de mofo de alguns hotéis em que nos hospedamos. Obrigado por ter se perdido, sem soltar a minha mão, em meio à multidão de Buenos Aires. Obrigado por ter bebido, no mesmo copo que eu, o delicioso pisco de Santiago. Obrigado por ter enfrentado, comigo, a esburacada estrada de Cunha e o pneu que furou quando estávamos quase – quase mesmo – em Paraty.

Obrigado por ter aguentado as pinicadas da minha barba de carroceiro (como você carinhosamente a chamava) e por ter passeado de mãos dadas comigo, no shopping, nos dias em que eu resolvi deixar um bigodão grosso. Obrigado por ter suportado os abraços suados que dei em você depois do futebol e os beijos melados de leite condensado que eu desferi só para deixar a sua bochecha grudenta.

Obrigado pelas Fruittellas que você sacou – do nada e para a minha alegria – de dentro da bolsa, e por não ter se assustado nas muitas vezes em que eu, antes mesmo de o trailer acabar, já havia comido todas as balas.


Obrigado por ter me recebido com sorrisos e por ter me cedido um cantinho da cama, nas madrugadas em que eu toquei a sua campainha com cara de pinguço e cheirando à boemia.

Obrigado pelos beijos que me deu na testa nas tantas manhãs em que saiu, para trabalhar, antes mesmo do início do meu primeiro sonho.

Obrigado por ter escolhido os pães mais claros, mesmo preferindo os mais escuros.

Obrigado por ter assistido aos filmes de ação, mesmo gostando mais dos dramas e das comédias.

Obrigado por ter me acalmado quando eu perdi a cabeça e por ter me feito perder a cabeça quando eu estava prestes a me afogar em meio à asfixiante calmaria da rotina.

Obrigado por ter me encorajado quando eu tremi de medo e por ter mostrado os perigos quando eu não fui capaz de vê-los

Obrigado por me ouvido quando eu precisava falar e por ter falado, sem parar, quando eu precisava apenas ouvir alguma voz verdadeiramente humana.

Obrigado pelos cafunés calmantes, pelas shantalas digestivas e pelas massagens relaxantes.

Obrigado por ter acreditado em mim quando nem mesmo eu fui capaz de acreditar.

Obrigado por ter me tirado da cama quando eu pensei em me esconder do mundo por lá, e por ter me feito voltar à cama quando eu disse que rumaria em direção à tempestade.

Obrigado por ter me obrigado a sorrir quando eu estava prestes a chorar e por ter chorado, de alegria, quando eu comecei a gargalhar.

Obrigado por ter espremido o seu corpo contra o meu nos dias frios e por ter me deixado completamente nu nos dias quentes.

Obrigado pelas fotos que tiramos e que, talvez, eu nunca mais tenha coragem de rever.

Obrigado pela cachaça que você trouxe de Minas, pela pimenta que você comprou na Bahia, pelas castanhas que vieram de Fortaleza e pelos bombons de cupuaçu que foram comprados no Pará.

Obrigado por ter me ouvido, atentamente, falar sobre lutas, mesmo preferindo os esportes de inverno.

Obrigado por ter permitido que eu ensinasse você a comer com o hashi.

Obrigado por ter ouvido, até o final, as longas piadas que eu repito – mais de cem vezes – como se eu contasse algo inédito. Mas saiba que, ao menos a você, eu não as contarei mais.

Enfim, obrigado por tudo.

 

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Escrito por Ricardo Coiro – Via CATWALK

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