Com você eu sosseguei

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Passei boa parte da minha vida procurando um lugar para fazer morada. Claro, eu sei que sonhamos com uma casa de tijolo e cimento, algo concreto e com uma forte resistência. Mas nesse caso, estou me referindo à um abrigo que poucos oferecerem hospedagem gratuita: o coração. Eu compreendo que seja difícil abrir a própria zona de conforto para um desconhecido, e convidá-lo a entrar. Porém, se nos colocarmos no lugar do outro, certamente iremos comprovar que a insegurança sempre merecerá uma oportunidade e que por um descuido qualquer, amanhã poderá ser a nossa vez de pagar o aluguel por não termos um teto.



Seria imprudência da minha parte abrir a porta sem pedir licença? Talvez seja por isso, que eu demorei tanto tempo para encontrar um lugar com lareira acesa, onde eu me sentisse quente e confortável para tirar das costas toda a minha bagagem pesada. Você não imagina a dor que eu senti por ter que caminhar de mãos dadas com uma esperança que parecia improvável.

Eu poderia ter batido em outras portas, pedido por comida quando a minha barriga estava doendo de tanta fome ou implorado por uma atenção que eu nunca tive. Ao contrário de me entregar a toda carência que eu sentia, sentar e chorar, eu continuei seguindo. Trilhei por lugares lindos, que me deixou fascinada, com brilho no olhar. Esbarrei em algumas pessoas, que me olharam diferente. Algumas pareciam sentir piedade, outras compaixão, interesse, não sei explicar muito bem, mas eu retribui todos os mínimos detalhes positivos que me ofereceram. Eu também senti desprezo, e na realidade, foi o que mais me machucou até te encontrar. É complexo descrever sobre um sorriso bonito, que transparece confiança. Nem todos eles refletem felicidade, mas a maioria, estão em busca dela.

Eu era apenas mais dois pés descalços, pisando em um chão sujo. A minha pele ficou manchada de mentiras, traições, humilhações, preconceito, e tantos outros fatores que contribuíram para o meu amadurecimento. Mas com você, eu não precisei me camuflar em meias brancas, tornando clareza o que era encardido. Eu te apresentei os meus machucados, te contei sobre os meus medos e planos futuros. Sem mecanismo de defesa, me abri e declarei a minha fragilidade no verbo amar. Você está com todas as cartas na mão.


Eu imagino que para você, no começo, tenha sido no mínimo curioso escutar a história de alguém como eu, que embora tenha sido um começo diferente, era uma completamente anônima. E ainda assim, você me escutou, prestou atenção e no final, até duvidou um pouco da autenticidade das minhas palavras. Eu provo em atitudes, diariamente, o quanto é aconchegante me entrelaçar nos seus braços antes de pegar no sono. Embora eu tenha uma certa afinidade com a língua portuguesa, eu nunca precisei de especialidade em matemática para comprovar que eu e você, significa somar e dividir.

Desde então, você se tornou o meu sossego. As minhas noites profundas de descanso, são resultados dos dias iluminados ao seu lado. Os meus copos de bebidas, agora estão cheios de saúde. O meu suor, é resultado da ânsia em sempre querer acertar. A saudade é o reflexo da sua importância, o frio na barriga dos seus toques e o abraço apertado, o pavor em pensar sobre ficar sem você.

Nem todos os relacionamentos são consistidos apenas em fatos bons. Por vezes, passamos por crises e brigas, que solidificam as barreiras do que chamamos de porto seguro. Seria incoerência da minha parte dizer que nas vezes em que caímos, eu não tenha tentado levantar sozinha. Eu tentei, sim. Eu tentei verdadeiramente ser mais rápida do que a emoção, e seguir com a razão. Mas eu fracassei com o meu auto controle, desisti de alguns valores e princípios, e sempre que te encontrei em meio a sensibilidade, te dei as mãos e puxei para cima. Não importa de quem tenha sido o erro, sempre houve cumplicidade.


E então, com tantos contratempos, altos e baixos, os meus passos ficaram lineares aos seus. Um tropeço aqui, outro ali, mas nenhum que fizesse com que desistíssemos. E sabe, eu acho que é exatamente isso que mantém tudo em eixo: a escolha de querer ficar. Talvez, porque saibamos que amores não se encontram em qualquer esquina, ou que os romances perfeitos só existem nos filmes, somos realistas. Às vezes, assistimos alguns dramas, mas nada que desvirtue a missão de sermos protagonistas do mesmo final feliz.

Com você eu sosseguei. Abro mão do que for preciso, corro atrás do duvidoso e sorrio mesmo sem motivos. Me adaptei a casa nova, ajeitei os móveis de acordo com os nossos diferentes gostos e seguimos sempre prosperando o mesmo objetivo. Não se preocupe em mudar os objetos de lugar, encontraremos uma forma satisfatória de nos agradarmos. Se o chuveiro queimar, podemos juntar a coragem com a vontade. Se o jantar não sair no horário programado, sempre podemos esperar e dar um jeito no imprevisto. O importante de tudo isso, é a certeza de que para dar certo, só é preciso querer e fazer acontecer.

Vou demorar um pouco para responder as suas próximas mensagens. Agora estou ocupada, empacotando todas as minhas tralhas que estão repletas de poeiras…

Tenho direto a uma cópia definitiva da chave?

Vou morar com você no próximo final de semana.

 

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Escrito por Jéssica Pellegrini – Via Jéssica Pellegrini

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