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Inteligência é afrodisíaco…

Confesso que julgava um livro pela capa, um filme pelo trailer e, principalmente, um garoto por suas roupas. Aliás, não só roupas, mas cabelo, postura e gírias. Tinha uma incontrolável mania de ver defeitos, quaisquer que fossem pra me manter distante.



Era uma autodefesa. Ou medo. Ou os dois. A questão era não dar margem pra se apegar, não dar cabimento à imaginação. Desdenhar qualquer interesse em comum, distorcer qualquer ato de doçura. Isso tudo porque, quer quisesse ou não, fui bem treinada. Estava acostumada à nociva competitividade feminina por atenção, a mascarar grandes surpresas, a rejeitar declarações pomposas. Já me conformara com a ideia de que o cara certo não existia, tampouco o bom moço.

E chegara ao ponto de pedir a todos os santos que aquela criatura, pelo menos, prestasse em um relacionamento sério. Ou seja, estava submetida, subvertida. E, sobretudo, cansada.

Acontece que eu realmente não podia esperar pessoas melhores andando nos mesmos lugares. Seria uma interminável procura pela exceção que, talvez, sequer existisse. E também não podia esperar o novo, esse cara surreal, enquanto eu mesma estivesse focada nesses ineloquentes detalhes. Isso que eram: detalhes. E por isso admiro quem tem a capacidade de enxerga-los como tal; eu não tinha.

Eu era a tempestade num copo d’água, a pressa das escolhas seguras. De tantas vezes que pisei em ovos, me tornei alguém que andava nas nuvens, submersa em minhas próprias utopias de que existia esse final feliz. Era confortável acreditar em destino, em almas gêmeas, em opostos que se atraíam porque eliminava o peso da dúvida de que, talvez, eu não estivesse procurando certo.


A verdade é que nem sempre quem enche o coração, completa a alma. Faltava algo no garoto de sorriso perfeito, gingado malicioso e respostas na ponta da língua. Faltava algo naquele que procurava agradar com frases feitas e atitudes ensaiadas. Faltava o inesperado, a expectativa.

Venhamos e convenhamos, depois de um tempo todos eram iguais. Todos encontros previsíveis, todas as conversas transformadas em doses. Cada vez menos perguntas e mais sorrisos frouxos, olhares úmidos e vozes arrastadas. Depois de um tempo, todo fim de noite era assim: uma porção extra de babaquice nos precipitados convites, pedia a conta e ia embora.  Não sei, talvez eu estivesse ficando velha mesmo e, por vezes, ranzinza. Mas esse negócio de preencher os pré-requisitos já me saturara.


Percebi, então, que nutria aos poucos um certo preconceito em relação aos estereótipos. Generalizava mesmo qualquer que fosse a semelhança entre os padrões. Era um tal de cortar o mal pela raiz, eliminar as chances de dar certo por um vestígio que remetesse ao passado que deu errado. A questão é que se fechar é ainda pior do que se submeter.

Você acaba se tornando uma dessas pessoas, sabe? Chatas, arrogantes. Nariz em pé, olhar de soslaio. Você acaba se encaixando, sem perceber, em uma dessas panelinhas que recrimina a olho nu. Eu tinha essa prepotência que me dava um monóculos imaginário, esse disparate de exigências. Não sei, talvez eu estivesse ficando velha mesmo e, por vezes, amarga. Mas esse negócio de perder tempo com meio termo, meio gente e meio carma não era comigo.

Não sei dizer em que momento cruzei a tênue linha do tesão pelo corpo. Eu tinha tesão pelo o que vinha de dentro, pelo o que se dispunha ao acaso. Meu interesse era por ideias desconexas, soltas ao vento, sem qualquer precisão de normalidade. Eu queria mesmo diálogos aleatórios, sorrisos sem roteiro e elogios sem clichês. Queria quem se mostrasse e, não, se vendesse.

Eu não estava interessada em suas vitórias, mas em suas jornadas. E nem mesmo me preocupava com seus ganhos, mas como lidou com as perdas. Não me importava com seus gostos e tampouco que fossem iguais aos meus, eram os seus planos que me deixavam sonhando acordada. Não sei, talvez eu estivesse ficando velha mesmo e, por vezes, impaciente. Mas esse negócio de beleza já não era suficiente.

Me desculpem os lindos, saradinhos, filhinhos de papai e manifestantes radicais sem causa, mas inteligência é fundamental.

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Por: Samantha Silvany – Via: Bendida Cuca

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