“A ansiedade é a marca da nossa modernidade líquida, em que as relações são cada vez mais descartáveis”

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Parece mais um clichê sobre o tema, mas na verdade vivemos uma “onda turbulenta” de ansiedade que atinge todas as dimensões da vida social.



Mesmo assim, é uma questão tratada de modo superficial, por isso precisamos entender os transtornos que ela pode desencadear em nossa mente e corpo.

A ansiedade é um estado emocional que está associado aos sentimentos de insegurança e incerteza, que já sentimos em menor ou maior grau. Ela tem uma função adaptativa, que move os nossos recursos psíquicos e físicos, como forma de antecipar uma situação de perigo.

Porém, a ansiedade se torna prejudicial, como afirmou Sêneca: “Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças.”

Para Freud, nascemos propensos à ansiedade, que constitui a capacidade de reagir às ameaças que põem em risco a nossa sobrevivência. No entanto, quando ela se converte numa antecipação neurótica das circunstâncias, perde seu papel de autoproteção.


O psicanalista Rollo May disse que “muitas pessoas estão ocupadas só para disfarçar a ansiedade; seu ativismo é um modo de fugir de si mesmas. Elas obtêm um pseudo e temporário senso de vivacidade correndo de um lado para o outro, como se estivessem realizando algo só pelo fato de se movimentarem, ou como se estarem ocupadas fosse uma prova de sua importância.”

Na mesma perspectiva de May, o sociólogo Zygmunt Bauman alertou que a ansiedade é a marca da nossa modernidade líquida, em que as relações são cada vez mais descartáveis e permeadas dos sentimentos de rejeição, fracasso, desaprovação, perda de prestígio, etc.

Além disso, a violência, a pobreza, o desemprego e os trágicos efeitos da pandemia do coronavírus aumentaram os níveis de ansiedade, que tensionam os músculos do corpo, aceleram os batimentos cardíacos, apertam o peito, deixam a boca seca, geram desconfortos abdominais, entre outras sensações ruins.


A nossa era da ansiedade possui um intenso vínculo com a hiperconectividade, que se caracteriza pelo uso excessivo de tecnologias, que produz os sintomas da “nomofobia”, ou seja, o medo irracional de ficar sem utilizar os smartphones e as redes sociais por qualquer motivo.

Não há dúvida de que a ansiedade faz parte da vida, contudo, no momento em que ela superdimensiona os eventos dolorosos e tristes que pertencem à condição humana se transforma num transtorno de personalidade, que causa sofrimentos e afeta os relacionamentos pessoais.

Apesar disso, temos condições de enfrentar a ansiedade, pois há recursos à nossa disposição, como adoção de hábitos saudáveis, prática espiritual e, em casos mais graves, medicamentos ansiolíticos, sob orientação médica.

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