A presença daqueles que amamos permanece em nós mesmo depois de sua partida

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Fecho os olhos e sorrio. Alívio. Ninguém morreu de fato.



Há dias de sorrir e há dias de refletir. Pensando na existência da vida e no quão frágil é a vida, estava vendo alguns vídeos na internet e me deparei com um clipe da emocionante animação “Viva, a vida é uma festa” (Coco, 2018), da Pixar, que retrata as tradições e folclore da cultura mexicana do Dia dos Mortos.

Ao escutar novamente os primeiros acordes da canção “Lembre de mim”, interpretada em português por Rogério Flausino, do Jota Quest, na cena em que Hector se despede da jovem Mamá Coco, sua filha, peguei-me relembrando meu pai tocando violão. Uma melodia, um banquinho de madeira e uma canção composta para mim. A menina de três anos, de calcinha vermelha com bolinhas azuis parava a brincadeira de casinha e sentava-se satisfeita, acompanhando a letra daquela música que a fazia chorar de alegria, porque viola tem um som que faz a alma ser tocada de forma tão profunda e poderosa, que é como como se fosse outra pessoa fazendo morada dentro de mim.

Cresci assim, sentindo música. Meu irmão também tocava. Vim de uma família de compositores, que fazia serestas até o amanhecer.

Relembrei-me também meus avós, tios, primos, e uma irmã e um irmão, estes dois eu nem cheguei a conhecer, porque não deu tempo. E o tempo… Sempre ele. Ele vai levando quem a gente ama, sem a gente perceber. Dia a dia vamos perdemos nossos queridos num piscar de olhos, numa despedida alegre sem saber que será a última vez.


Nunca saberemos. A vida se esvai muito cedo ou muito tarde, ou no seu próprio tempo. Uns se vão sem ter tempo de gozar a vida, outros decidem dar cabo da própria vida e outros são roubados de seu direito de viver, ceifados de seu direito ao livre-arbítrio.

Às vezes, eu me pego olhando as estrelas ou mirando as pedrinhas das calçadas e fico pensando em quantas histórias presenciaram. Quantos encontros, desencontros, quantas promessas que eram certeza e no segundo seguinte se tornaram só um sonho que se transformou em pesadelo.

Lembro-me da loira bonita a caminho do altar que se foi ainda vestida de noiva, deixando para trás um véu de saudade no pranto do noivo. Ou do menino que foi chamado de esquisito e, num desafio, trancou-se no quarto, enquanto todos dormiam, e tirou a própria vida. Do jornalista que se foi antes de chegar para o jantar da esposa querida.


Lamento todas as lindas histórias que não puderam ser totalmente escritas, finitas nas reticências, perdidas no loop eterno do “e se…”.

Daí, enxugo as lágrimas pelas dores sentidas, porque me solidarizo com as almas perdidas, mas então caio em mim e lembro que todas elas dançam no tempo e no espaço, pois o tempo é relativo, logo todos esses personagens queridos ainda sobem no palco e eu, na plateia, aplaudo-os.

Eles viveram a vida que lhes foi apresentada e nela estão gravados. Dou o replay e logo o recomeço eu gravo, assisto e regravo. E, nesse ciclo, a vida se renova e se eterniza. Fecho os olhos e sorrio. Alívio. Ninguém morreu de fato.

 

Direitos autorais da imagem de capa: Richard Jaimes/Unsplash.

 

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* Matéria atualizada em 15/02/2020 às 5:46






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