A vida, ainda, é uma só. Permita-se aventurar, sem constrangimentos e limitações

Quando sentimos sede, temos certeza de que ainda estamos vivos. Eu sinto sede. A sede necessária para me jogar de corpo e alma na vida, mergulhando no tempo e me permitindo amar e me aventurar sem, constrangimentos e limitações. A vida, ainda, é uma só. 

Tudo é transitório. A gente se acostumou a não levar a sério o tempo. O tempo passa tão veloz e os dias se amontoam e se atropelam bem à nossa frente, que deixamos que ele corra mesmo e nem nos damos ao trabalho de procurar acompanhar. Muito menos de andar no nosso tempo. O que vejo é uma corrida insana para não ficarmos desatualizados e nem ficarmos para trás.

Na verdade, a gente fica mesmo é da mesma maneira que o tempo, deixando que as pessoas passem em nossa vida. Não nos apegamos mais às pessoas. Os amores são passageiros. Nós nos demos conta que não precisamos nos esforçar. A cada dia ficamos menos exigentes e pouco lutamos. É mais fácil jogar fora o que não está funcionando e adquirir outro. Mais novo ou mais fresquinho. Ou mais jovem. Ou diferente. Ou que ainda não experimentamos. Ou de outra cor ou de outro cheiro ou de outro lugar. Ou, enfim, já não importa muito se envolver, prender-se às histórias, nem em discutir a relação. Por quê? Porque já não há amor de verdade que supere tudo e que se reinvente ao longo do tempo.

Tudo é voraz. É tudo volátil. É tudo consumível. E descartável. Reinventamos os sentimentos e os tornamos intensos, mas rasos o suficiente para não permanecer a tempo nada que gere além de intenso prazer, nada que se construa com profundidade e que, ao terminar, não cause dor. E sem esse apego, aos poucos, vamos nos tornando, de certa maneira, insensíveis. Chego a duvidar de que daqui a pouco a gente consiga entender a profundidade dos sentimentos ou mesmo de sentir de verdade.

Não precisamos de mais tempo. Precisamos de um tempo que seja nosso. Não precisamos de mais aventura, de mais amores, de mais experiências.

Precisamos viver intensamente uma aventura de verdade, mergulhar de corpo e alma em projetos de vida e ir até o fim, alcançar o que queremos e não ficar pulando de galho em galho, de projeto em projeto. De emprego em emprego.

Precisamos dar o nosso melhor e superar as nossas expectativas. Ter expectativas sobre a gente mesmo, que envolvam uma análise de quem fomos, de quem somos e de quem queremos ser.

Precisamos aprender a nos envolver. Precisamos reaprender a nos apaixonarmos. E da paixão aprendermos o caminho do amor verdadeiro. Aquela energia nos faz sorrir ao acordar e nos dá ânimo para sairmos da cama. Não tem coisa melhor que ter no peito um coração a bater forte porque a pessoa que gostamos está a chegar. Não há coisa melhor que as borboletas no estômago que nos tiram do sério. Aquela falta de ar característica depois de um beijo de verdade. Ou assistir àquele final de tarde de mãos dadas e descansar o espírito no ombro que sabemos que estará ao nosso lado mais dias do que a gente possa contar. E que a gente sinta satisfação nisso tudo.

Eu não quero voltar no tempo. Eu não quero propor que a gente saia por aí dizendo que está tudo errado. Não está tudo errado. O que ocorre é que deixamos de estar atentos ao que realmente importa. Já sabemos que o tempo não volta. Já sabemos que os dias se sucedem e não podemos evitar que dias e noites se alternem. Mas podemos, eu acredito nisso, nos permitir termos um tempo nosso. E nesse tempo, cultivar o que de melhor temos dentro da gente. Aquela essência, aquele frescor, aquele desassossego que tira a alma do prumo para trazer à tona quem somos de verdade. Proponho que voltemos a ter expectativas.

Nada melhor que ter expectativas, pois expectativa é uma coisinha cheia de vontade e de desejo que deixa a gente com uma sede diferente de todas as outras sedes. Sede de uma ideia, de algo que vive em nossa imaginação, sem a qual temos a absoluta certeza de que morreremos de sede. Quando sentimos sede temos certeza de que ainda estamos vivos.

Eu sinto sede. A sede necessária para me jogar de corpo e alma na vida, mergulhando no tempo e me permitindo amar e me aventurar, sem constrangimentos e limitações. A vida, ainda, é uma só. 


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: maridav / 123RF Imagens




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