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Amar alguém pode ter a ver com deixá-lo ir…

Amor é sobre amar e não sobre ganhar. Ama mais quem esquece melhor, quem acolhe a escolha do outro e toca adiante a própria vida, apaixonado, cheio de amor por si.


Conheço uma mulher que, há quinze anos, cultiva forte sentimento por um mesmo homem. O que seria lindo, convenhamos, se houvesse reciprocidade. Pior que isso só mesmo uma história que vi na internet sobre um bem-sucedido jovem que, agora com seus vinte anos, nutre uma paixão que – pasme! – teve início aos sete anos de idade. Essa paixão o vem impedindo de viver uma relação com qualquer outra pessoa, tal a fixação pela colega do jardim de infância. E, sim, tanto a mulher quanto o jovem chamam o seu sentimento de amor.

Essas histórias decerto soariam bonitas na teledramaturgia e até na literatura, mas, quando manifestas na vida real, não raramente, têm sua origem em carências, medos e concepções equivocadas de amor.

Muito embora eu não seja totalmente avesso ao romantismo, dada a prudência em se reconhecer o valor de tudo o que se apresenta, reconheço o quanto ele contribui ainda nos dias de hoje para o adoecimento de nossas relações: expectativas exacerbadas, projeções, cobranças, frustrações…

Sei o quão lamentável parece, mas convém que estejamos alerta para o fato de ser esse o destino de todos que, na contramão do autoconhecimento, alicerçam os seus sonhos em pessoas que, às vezes, demoram…, pessoas que, comumente, nem mesmo chegam.

Amor ou vontade de ganhar?

Certa vez, respondendo à mensagem de uma telespectadora que lamentava a dor de um amor não correspondido, o tão querido Padre Fábio de Melo afirmou que a insistência nesse tipo de ilusão não raramente consiste na vontade de ganhar, e não em um legítimo desejo de amar.


À primeira vista, pode parecer que o padre tenha sido duro. Pensemos, porém, naquelas situações em que aquele amor que tanto desejávamos para nós começa a perder o seu valor quando, finalmente, cai em nossas mãos. Pensemos naquelas situações em que, obcecados por alguém, rechaçamos outro alguém que se mostra disposto a nos dedicar todo o amor que desejamos. Pensemos nessa nossa natureza perversa que parece nos levar a desejar com mais ardor ainda aquilo que nos é negado.

Amar alguém pode ter a ver com deixá-lo ir…

Não tenho dúvida de que essa obstinação é bem-vinda em se tratando da busca pela nossa felicidade, pela qualidade de vida, pela ascensão social, etc. É importante, no entanto, direcionarmos esse nosso instinto competitivo para aquilo que podemos, relativamente, controlar. E as pessoas, definitivamente, não figuram em tal categoria…

Se você almeja uma promoção, determinada renda, determinado peso, etc., há, em abundância, alternativas às quais se recorrer para alcançar tal objetivo. Diante da negativa do ser amado, porém, nada nos resta além de aceitar a escolha do outro, deixando-o livre e demonstrando, assim, o amor que de fato sentimos. Pois amar, às vezes, tem a ver com deixar ir

Qualquer atitude contrária a esse desprendimento tornará necessária uma profunda introspecção, durante a qual poderemos identificar imensa dificuldade em lidar com a rejeição, bem como total ausência de amor-próprio, pois o amor em demasia pelo outro tem a medida exata da distância que tomamos de nós mesmos.

O amor é desinteressado

E não. Não pretendo fazer aqui uma apologia a maneiras de amar ainda tão distantes de tudo o que aprendemos sobre amor. Parece-me um bom começo, porém, se nos enveredamos pela arte de amar a nós mesmos.

E isso se consegue, por exemplo, fazendo daquele doloroso “não” um ponto de partida, o início de uma nova história a ser protagonizada por ninguém além de nós mesmos.

Aceite o conselho de quem já passou por isso. Eu sei o que são madrugadas insones, o desejo infindável e a eterna espera de respostas. Eu conheço bem a peregrinação pelas redes sociais na doce ilusão de, dessa forma, trazer o outro um pouquinho para perto de mim. Eu sei o que é ansiar pelo abraço que, em nossa mente adoecida, é o portador da cura para toda a nossa existência.

Eu sei o que é isso, e é justamente por eu já havê-lo atravessado que eu pretendo poupar você. Eu já passei por isso para que você não precise passar.

Chega de acompanhar a vida de quem não acompanha a sua. Chega de se manter estagnado por alguém que está tocando adiante a própria vida, sem nem ao menos se lembrar da sua existência. Chega de erguer castelos de areia a serem destruídos por marés cada vez mais altas, pois paixão não correspondida pode se transformar em frustração e, em seus estágios mais elevados, obsessão e até mesmo depressão.

Amor é sobre amar e não sobre ganhar. Ama mais quem esquece melhor, quem acolhe a escolha do outro e toca adiante a própria vida, apaixonado, cheio de amor por si.

 

Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Amor: 123RF Imagens.




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