Aquela bagagem extra que você traz para os seus relacionamentos

Estamos acostumados a carregar nossa bagagem de experiências como se fôssemos tartarugas, que carregam a sua casa por todos os lados.

Vivemos nessa situação em que, muitas vezes, temos uma realidade que não nos é confortável.

Torna-se mais fácil usar dessa nossa bagagem de experiências mais ou menos sucedidas, mais ou menos queridas ou odiadas, para justificar as nossas atitudes e as nossas escolhas diante das pessoas, do que nos acontece e de nós mesmos, frente ao espelho.

É complicado nos desfazermos desse peso extra que carregamos, quando iniciamos um relacionamento, quando estamos diante de um novo desafio ou de uma nova realidade.

De certa maneira, torna-se injusto estarmos presos a essa bagagem quando a usamos como desculpa ou caução para justificarmos ou nos protegermos do que acontece. Contudo, se voltarmos o nosso olhar para nós mesmos, bem sabemos que esse escudo de experiências, ao invés de nos ajudar a saber para onde devemos ir e para onde não devemos, nos paralisa e impossibilita de viver intensamente.

Na verdade, não processamos o que nos acontece. Ao invés de nos libertarmos do que nos aconteceu, refletimos sobre aquela relação que terminou, aquela perda de alguém que gostamos, aquela demissão ou situações que fazem nossa vida virar de cabeça para baixo. Sequer as guardamos em uma gaveta, as deixamos ali expostas, andando ao nosso lado, como um grande e imenso peso de papel que nos retarda e nos transforma em criaturas que têm espinhos ao redor do corpo, e nada pode nos alcançar.

Quando sentamos à mesa de um restaurante para conhecer uma nova pessoa, que pode tornar-se alguém especial, jogamos sobre ela, antes mesmo de virem as entradas, toda a nossa vida anterior àquele jantar. Está ali a partilhar da refeição toda essa bagagem de experiências que não foram processadas, que se transformaram em culpa, em rancor e desânimo perante a vida.Muitas vezes, já determinamos o final do filme, mesmo antes de assistir aos primeiros minutos. Determinamos, como carrascos de nós mesmos, uma lista de “senãos” que impedem a ultrapassagem das coisas passadas.

Revivemos tudo novamente ao conhecer uma nova pessoa, que não tem responsabilidade e muito menos culpa pelo que já vivemos até aquele momento.

E, sem surpresa alguma, quando mais uma vez um relacionamento não dá certo, lá se vão mais algumas horas, dias, meses e anos de experiências que não serão processadas, nem internalizadas e, sem outra via de escape, distribuiremos as culpas na medida em que nos for mais confortável.

Mas são os outros que não se afinam conosco. Não houve compatibilidade, diremos! Não houve afinidade! O horário não era bom e o salário era menor do que eu estava disposta a aceitar! Ele era baixo, alto, magro, acima do peso. Ele era entusiasmado, calmo demais, falava demais, falava de menos, era atrasado ou era adiantado. Enfim…

E, quando algumas vezes queremos ser um pouco mais tolerantes, diremos: ele era mesmo uma pessoa incrível, mas não era o momento. Não estava preparada. É claro que não estávamos preparados! Como estar, se a nossa casa está toda desarrumada, com tudo por fazer e ajeitar? Estão lá as coisas que vivemos, espalhadas sem ordem nenhuma, e não temos a mínima ideia do que fazer com tudo aquilo.

Passamos tempo demais cuidando da nossa aparência e procurando a pessoa perfeita, a situação perfeita, a casa perfeita, quando o que temos somos nós nessa bagunça toda e ainda incapazes de nos despirmos do que já deveria ter ido embora a algum tempo.

Tirar a roupa é fácil, mas nos despir de nossas dores e mágoas, é complicado. Receita? Levarmo-nos a sério e não nos escondermos das nossas experiências.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF / galinkazhi




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