Como levar a bofetada da ingratidão e ainda se sentir grato por isto

Tenho certeza de que você se assustou com o título e chegou a pensar que eu não bato muito bem das ideias, não é mesmo? Mas em uma coisa você há de concordar: a ingratidão fere a nossa alma lá no fundão, não é? É aquele “vácuo” que a pessoa lhe dá, sem uma razão plausível.

Mesmo após ter dispensado toda a sua consideração, a pessoa age como se nós não tivéssemos feito mais do que a nossa simples obrigação. É claro que fazemos isso ou aquilo sem pensar em emitir nota fiscal, mas passarmos por invisíveis. Ah, isso não, já é demais!

Vou ambientá-lo em alguns cenários para você entender onde eu quero chegar: horas dispensadas do rico soninho da madrugada para acalmar aquela amiga que terminou o namoro com o boy, e depois quando fazem as pazes, você é excluído (a) das redes sociais dela. E quando de supetão recebe uma declaração de término de relacionamento, após num trabalho exaustivo de anos ter feito o seu marido crescer e acreditar em si, e agora ele voa com as próprias asas, mas não a leva junto na empreitada.

Outro exemplo top: aquele amigo coitado que não tinha nem como pagar a conta de luz, com três filhos, um de cada relacionamento e que você recomendou para ser seu colega de trabalho na sua empresa por achá-lo extremamente competente, mas que acabou de puxar o seu tapete, ocupando o lugar de chefe que já estava reservado para você. Fora o ar de tirano que ele assume, que vamos combinar, é a cereja do bolo da situação, não é?

Eu poderia ficar enumerando as situações aqui, mas perdi o fôlego só de contar! O investimento requer uma resposta de volta. E quando não há esse feedback, nós nos sentimos os piores dentro da nossa espécie. Parece que não somos suficientes para isso ou aquilo, ou espertos o bastante para detectar a trairagem do outro. E haja autoflagelação! Será que você precisa se torturar tanto assim?

Vamos lançar um olhar para o todo, com os ânimos acalmados e a poeira baixa?

O que este relacionamento/amizade/relação de trabalho significa para você? Você se encontra presente e lúcido nestas situações? Como se constrói esta ética relacional entre você e a outra parte?  Via de mão única ou dupla?

Há regras entre duas pessoas, mesmo quando não há regras. Confuso isto? Vou explicar: quando você se furta a dizer o que o agrada ou desagrada, você está fazendo disto uma lei. O que é discutido, ou não, vira regra. Regras essas que não são ditas, mas subentendidas, muitas vezes com malícia da outra parte que se vale da inocência e permissão do outro para fazer a sua verdade prevalecer. Daí o sentimento de ter sido traído por aquela pessoa tão amorosa e afável no início das coisas.

Por outro prisma, podemos observar que algumas pessoas podem não estar prontas para receber aquele afago, aquela acolhida. Aprenderam durante a vida a não serem dignos de amor, de cuidado e consideração alheia. E num mecanismo de defesa, tornam-se gélidos e insensíveis, anulando toda tentativa de reconhecimento de afeto vindo do outro, uma vez que seria algo absurdamente anormal para eles, já que a sua essência é de uma autocomiseração disfarçada de autossuficiência.

Fora que todos passam por momentos de tormenta na vida. Sim, eu e você! Momentos de azedume e descrença que nos mantém cegos, paralisados e amargos, impedidos de perceber as coisas boas que chegam até nós.

Vou apresentar a você uma realidade mais dura ainda: muitas pessoas não reconhecem o outro porque não querem estar no compromisso de pagar essa dívida de devolver na mesma moeda. É punk, mas é um caminho que o ser humano também pode escolher. Não creia em unicórnios, por favor!

Agora, olhe para você. Examine-se nesta situação. Sob que motivação suas ações foram executadas? Assim como o outro que não aprendeu ou está incapacitado para receber amor, talvez você tenha tido a sorte grande de ser alimentado (a) por este sentimento nobre durante a sua vida! Isto faz parte de você. Portanto, não deve rechaçá-lo, como a maioria das pessoas faz quando se decepciona. Deve ser grato e se orgulhar, pois naturalmente exala uma virtude tão escassa nos dias de hoje, que é o amor ao próximo.

Continue sendo você, com a sua essência, do jeito que é. Com certeza, o Universo agradecerá!


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