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Como poderia sentir tanta saudade de alguém que ainda estava aqui?

A gente se encontrou numa quarta-feira à tarde, e desde então a vida nunca mais foi a mesma.



Nós demos as mãos e deixamos alguns trens passarem para esperar o próximo, o próximo, e enquanto isso, fomos sincronizando as batidas em cada canto que parávamos para sermos nós. Toda terça-feira virava sábado. Todo domingo vinha acompanhado de “fica mais um pouco”.

Eu ainda sinto seu cheiro, mesmo quando não está por perto, no meio do caos, o barulho martelando lá fora, mas aqui eu sinto, lembro e vejo você. Mesmo de olhos fechados, ainda que não tenha amanhecido e o vento não sopre, eu me lembro.

Eu me lembro de tudo. Eu ainda consigo visualizar suas formas, sua presença ainda está morando em mim, sua ausência ainda faz meu corpo pesar.

Nós nos perdemos no embaralho dos nossos corpos, depois de tantas madrugadas viradas tentando fazer o tempo ceder mais alguns segundos para o nosso amor perdurar. Cada fôlego perdido.


Cada palavra. Cada suspiro cansado, enquanto nos olhávamos e sabíamos que nunca poderia existir um mundo sem nós dois. Eu percorri todos os quarteirões esperando encontrar você. Como poderia sentir tanta saudade de alguém que ainda estava aqui?

Posso recitar as coordenadas de todo caminho que me levou até você, mas nem com bússola, mapa de viagem ou Waze consigo encontrar a esquina, o meio-fio, a lojinha de bairro, a estação de trem, ou seja lá qual for o lugar onde eu perdi você. Só sei que escapou pelos meus dedos, escorreu feito grão de areia marcando tempo acabado. Ao partir, arrancou nossa pele onde costumávamos grudar, mas hoje sei que, mesmo com os dedos entrelaçados, nós nunca dividimos a mesma vida.

Para chegar até você é só subida. Chuva na estrada. Roda enguiçando na lama. Trem atrasado. Escalada sem corda. Vento soprando ao contrário. Portas fechadas. Retornos perdidos. Mais e mais quilômetros a percorrer.


E eu tentei, eu corri com os olhos fixos em você, mas a cada passo ao seu encontro, você recuava alguns a mais. Eu nunca tive chance. Foi como tentar subir pela escada rolante que desce e sempre se sentir em desvantagem.

Não pude alcançar você, amor. Não posso amar alguém que não vem me encontrar na metade do caminho.

A descida sozinha tem me caído tão bem.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Amor. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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