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Converso comigo mesma, porque eu me entendo, sempre!

Ia atravessando a rua com muita pressa, era aquela famosa hora do almoço em que uma hora e meia é pouco para fazer qualquer coisa. Tropecei no meio fio com tudo, quase caí, então, comecei a me xingar no meio da rua discretamente. Ninguém me socorreu, porque não esborrachei no chão, apenas uma senhora que me perguntou se estava tudo bem.



Fui conversando comigo mesma pelas ruas, em tom quase silêncio e algumas pessoas me olhavam, mas sinceramente, eu não estava muito preocupada com os olhares me condenando: louca. Falo sozinha o tempo todo, porque aprecio um monólogo terapeuta, me acalma e eu me dou conselhos ótimos. Eu mesmo me oriento, pondero, dou opinião, porque eu me entendo, sempre.

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Não abro mão de ligar para os meus amigos ou encontrá-los em um bar, não dispenso um dedinho de prosa quando encontro conhecidos pelas ruas, é uma alegria conversar com os meus pais e mina irmão todos os dias, mas bater aquele papo diário comigo mesma o tempo todo, mesmo que em uníssono, apenas uma só voz que fala e responde, não tem coisa melhor.


Em casa, eu converso o tempo todo comigo, falo sobre o tempo, reclamo a falta de grana, pergunto o que preciso pagar e comprar, faço caras e bocas quando penso em algo que não deu certo ou me magoou, falo o que queria para aquela pessoa chata e sem noção, respondo verdadeiramente todas as perguntas indiscretas, faço cenas com quem eu não tenho coragem, imito as pessoas, xingo palavrões que ficaram na vontade devido a educação, resmungo do trabalho e falo de amor, é claro.
Eu falo, eu me escuto, logo nos entendemos e, nesse momento, eu percebo o quanto a minha conversa é agradável e me realiza. Sabe, às vezes, conversar sozinha é como libertar do que oprime, é ser eu mais de 1000% verdadeira, é sintonizar em mim mesma sem qualquer limite ou intervenção.

Converso comigo não por solidão, ou por falta de paciência, ou por ser louca ou por ser problemática, é que entre eu e eu, minha alma e eu, meus pensamentos e eu existem afinações perfeitas, ajustes impecáveis, afinidades invejáveis. Eu e eu, sinceramente, nos damos muito bem e somos inseparáveis.

Falar sozinho não é loucura, é ser livre para pensar e é se achar no tumulto dos pensamentos. Eu me acho a melhor companhia quando estou sozinha, quando estou em casa descansando ou cuidando dos meus afazeres. Não tem nada mais prazeroso do que estar limpando a casa e colocando a conversa em dia comigo mesma.


Eu converso com a televisão também, aliás, eu discuto com os personagens dos filmes e séries. Dou sugestões de roupas, critico a política e economia, xingo os absurdos e choro com as barbáries.
Dentro de mim existe uma alma silenciosa que precisa de atenção, um coração apaixonado por tudo e que transborda, sentimentos que precisam de afagos o tempo todo, então, converso com eles, porque sabem o quanto eu preciso falar do que vive dentro de mim.

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Falo sozinha, ando distraída e sempre que posso, eu sou pura atenção para estar comigo mesma. E, eu não suporto quando sou interrompida. De médico e louco, todos temos um pouco, e eu sou doida varrida.


– Simone Guerra

Aquela noite… Deveria ter durado pela eternidade…

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