Copas das árvores: uma linda lição sobre respeito e amor-próprio

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Sabia que algumas param de crescer em respeito ao espaço e à individualidade das árvores vizinhas? Não deve ser fácil para elas, eu imagino, mas elas fazem esse esforço por respeito.



Aprendemos desde a tenra idade, através de nossos pais, avós, educadores, tudo o que é certo e o que não é, somos orientados a todo momento a usar as palavras mágicas, “obrigada”, “por favor”, “desculpa” e “com licença”. Um grande e difícil aprendizado é sobre nossos limites, um aprendizado importante, árduo e tão necessário para que a convivência social seja saudável. Mas mesmo com tanta informação, muitas vezes, não aprendemos ou fingimos não entender os limites que devemos respeitar.

Quando eu era adolescente, meu pai, em uma de nossas discussões, me disse: “Você tem tudo, menos limites.”

Confesso que na hora achei bonito, eu era uma adolescente rebelde e não ter limites era justamente o meu lema. Mas, no decorrer do tempo, percebi que não ter limites estava se transformando num hábito antiético.


A falta de limites nos faz pensar que podemos tudo: beber demais, correr demais, falar demais, espionar bolsos, mexer em celular, “stalkear” as redes sociais, questionar, proibir… Proibir? Como vamos proibir alguém maior de idade de ser quem é?

Quando conhecemos alguém e escolhemos nos relacionar com ele, devemos prestar atenção nos hábitos, nas amizades e gostos, porque depois de estarmos envolvidos emocionalmente, parece injusto querer que essa pessoa não tenha os mesmos hábitos ou não se comunique com seus amigos, ou não beba ou coma tal coisa porque nos desagrada.

E não adianta se jogar no chão e gritar, a tática que funcionava tão bem com nossos pais não funciona mais na vida adulta.

Para mim foi árduo compreender o limite, foi uma lição que não aprendi na infância, e não por falta de vontade dos meus pais, mas porque eu não quis, eu era repreendida, eu ficava de castigo, mas a lição nunca era aprendida, e o que não se aprende por amor, a dor ensina, e ensina de uma forma para nunca esquecermos.


Aprendi com a vida, e foi muito duro perder as pessoas que amava pela falta de limites. Eu não entendia que a individualidade existe e que o amor também precisa ser individual, algumas vezes.

Um dia, meu pai e eu fomos ao zoológico, eu com 39 anos e ainda sem limites, e ele com seus 62. Sentamos em um banco, ele gentilmente me trouxe um guaraná, como nos tempos da infância e, querendo me dizer algo, iniciou uma conversa, como era de seu temperamento, despretensiosa:

– Está tudo bem contigo? Ele disse, enquanto olhava para o céu.

– Mais ou menos. Soube que vamos nos separar, não soube?

– Não!

– Pois é, ele me pediu a separação. Estou amadurecendo a ideia ainda. Separada, com um filho de 9 meses, não vai ser fácil.

– Bom, não vai desistir, não é?

– Não, eu vou lutar por ele até o fim.

– Não foi isso que eu quis dizer. Não se pode lutar por alguém que pede uma separação. Quis dizer para não desistir do “amor”.

Eu respirei, soltei um longo e profundo suspiro, e ele continuou:

– Case de novo, e case de novo, se for preciso, mas não desista de ser feliz e de amar alguém.

– Isso é um conselho? Ele sabia que eu odiava os conselhos.

– Não, desde os 5 anos não lhe dou mais conselhos, mas quero aproveitar esse nosso tempo para lhe dizer que quanto mais observo as árvores, mais eu gosto delas. São silenciosas, fortes, dão frutos, abrigam os pássaros, e o mais fascinante de tudo: já percebeu que quando estão lado a lado elas crescem, mas cada uma no seu espaço?

Elas não invadem o espaço umas das outras, e por que será, não é? Ah porque elas têm limites! Sabia que algumas param de crescer em respeito ao espaço e à individualidade das árvores vizinhas? Não deve ser fácil para elas, eu imagino, mas elas fazem esse esforço por respeito.

– Isso é um conselho.

– Se ainda houver tempo de aprender, aprenda!

Depois disso, ficamos em silêncio por um longo período, sabia que ele queria que eu fosse como a tal árvore, sabia que todas aquelas palavras eram para mim, talvez como forma de aprendizado, já que para uma mulher de 39 anos não cabem palmadas nem “cadeira da vergonha”, mas aquele diálogo me deu mais vergonha que a cadeira e doeu mais que a palmada.

Logo depois ele faleceu, e percebi que talvez essa fosse a sua maior preocupação em relação a mim, o que o mundo faria comigo, já que eu ainda não tinha limites, o quanto mais eu iria sofrer até aprender que cada pessoa tem a sua individualidade, o seu mundo, os seus amigos e isso não a afasta de mim.

 

Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Amor: Sakoonwong Buaprommee /123RF Imagens.

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