Desculpa, mas você não é prioridade!

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Prioridade é uma coisa engraçada, pra não dizer traiçoeira. A gente acredita piamente que está dando prioridade àquilo que é realmente prioritário na nossa vida, mas, quando cai em si, lá estamos nós, feito bobos da corte, perplexos com o fato de que algumas das nossas mais valiosas certezas ruíram por terra. Ou foram trocadas de lugar.



Quando embarquei com tudo no mundo do desenvolvimento pessoal, uma das novas certezas plantadas foi a de que, a partir daquele momento, eu me colocaria como prioridade na minha vida.

Era aquela velha história: “Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio vão cair sobre a sua cabeça. Coloque primeiro em você, depois no outro”. Simples assim. Você só pode dar aquilo que te transborda.

Acontece que o tempo foi passando e a tal da nova certeza, como quase todas as outras, também despencou do pedestal em que ela estava. Depois de anos e anos prometendo a mim mesma que eu passaria a ser a pessoa mais importante da minha vida – porque amor-próprio é uma coisa que faz diferença, né, gente? – eu percebi que o ciclo de prioridades continuava invertido: eu estava cuidando muito mal de mim.

Trabalho sem descanso, cobranças daquelas dignas do chefe mais carrasco que você respeita, zero atividade física, zero preocupação com aquilo que eu comia, zero intenção de enfeitar a casa pra mim mesma, florir os espaços, usar coisas novas. Pra quê?


Tudo bem. Trabalhar de pijamas sempre foi um desejo antigo, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, só pra relembrar uma frase que sempre gostei de falar, mas nunca experienciei de fato. O que percebi, um pouco atônita, eu diria, é que eu realmente não me achava importante o suficiente pra me tratar com o apreço que eu trataria qualquer visita que eu recebesse na minha casa.

Já reparou como a coisa toda funciona? Se você vai receber alguém na sua casa, principalmente quando é uma pessoa que você não tem tanta intimidade assim, o modo de prioridade ativado pelo seu cérebro passa por: limpar a casa, organizar as bagunças, caprichar nas comidinhas que vai servir, vestir uma roupa bonita, colocar as louças novas pra jogo, tudo do bom e do melhor.

Não é assim? Até aquele vinho caro, que estava guardado há séculos, é capaz de você querer servir. Porque visita é visita. Tudo em nome da boa impressão, do receber bem, do mostrar que se importa, não é assim?


A ocasião especial é quase sempre aquela que envolve o outro, nunca só você, já reparou? Você não usa uma roupa nova só pra ficar em casa, em sua própria companhia, nem decora a mesa do jantar com tudo o que uma boa decoração de mesa tem direito, só pra que você tenha o prazer de jantar sozinho, com um menu caprichado, regado àquela bebida da sua preferência, música boa, aromatizantes de ambiente no ar. Só pra você? Dá preguiça. Desnecessário. Muito trabalho. Não é isso o que você pensa?

Eu também. Muitas vezes.

Engraçado também é pensar que, quando assumo um compromisso com alguém, pode chover canivete que eu vou fazer o possível e o impossível pra cumprir, mesmo que eu tenha que fazer alguns sacrifícios que não estavam previstos.

Quando a coisa é comigo, porém, às vezes encontro desculpas para não fazer, sou vítima das minhas próprias sabotagens, porque a prioridade é não furar com uma outra pessoa, não é mesmo?

Eu posso furar comigo mesma, tudo bem. O outro é sempre a prioridade.

Na maioria das vezes tento ser gentil e compreensiva com toda e qualquer pessoa. Falo palavras de incentivo, digo pra não levarem a vida tão a ferro e fogo, pra pegarem leve, para respeitarem seus próprios limites, para deixarem ir aquilo que não contribui e só pesa na bagagem. Mas quando é comigo, a coisa muda de figura: tem horas que a minha autocobrança é tanta que eu mesma não me suporto mais.

Sou capaz de perdoar coisas que me feriram feito faca afiada. Mas, se eu erro, coitada de mim! Punições mentais são recorrentes, porque eu tenho mania de perfeição, embora entenda e fale e ensine e esteja careca de saber que a perfeição não existe nem nunca vai existir. Quando é com o outro, é mais simples compreender. Mas, comigo? Eu não sou tão compreensiva assim, não.

Entende aonde quero chegar?

Se as opiniões do outro continuam a pesar tanto assim na balança, se é tão importante agradar primeiro – quando deveria ser o de agradar-se antes de tudo – como é que podemos dizer que estamos realmente cuidando bem de nós mesmos? Que somos prioridade na nossa vida?

Quando a ocasião especial sempre envolve uma outra pessoa, nunca só você; quando você só assume o que prometeu se a promessa foi para um outro alguém, não pra você; quando a necessidade do autocuidado é motivada pelo outro, não por você, qual é a mensagem que você acha que está emitindo para o Universo?

Quando a ficha caiu, confesso que me senti uma fraude, dessas que a gente fica chocada quando o escândalo ganha as manchetes. Foi difícil enxergar. Difícil reconhecer. Difícil mudar. Mas, sabe, estou em processo desde então.  Cada dia um novo passo. Cada dia um pouquinho mais.

Tenho aprendido que quando a gente efetivamente se coloca como prioridade na vida, amando-se, respeitando-se, perdoando-se e pegando mais leve com a gente mesmo, abrimos um fluxo intenso para que o Universo também nos ame, nos respeite, nos perdoe e pegue mais leve com a gente.

Nem sempre é fácil, mas quem disse que seria?

Tá aí uma das coisas mais incríveis e mais desafiadoras da vida: viver.

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Direitos autorais da imagem de capa: denyskuvaiev / 123RF Imagens

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