ColunistasAmor-Próprio

Ela preferia ser autêntica, correndo o risco de magoar uns e outros, a ser legal, ferindo a si mesma

ruby cevallos V 8nMp jpLc unsplash

Ela não conhecia o significado da expressão “epifania”. Seu tempo era escasso; seus hábitos, comuns.



Porém, naquela tarde, um tropeção sem importância, enquanto saía do supermercado com as compras nos braços, fez com que enxergasse o mundo e sua própria vida com outra percepção. A nova revelação, que agora vinha à tona com a força perigosa do que não pode mais ser negado, emergia violenta, sem chance de ser reprimida.

À semelhança de Ana, do conto “Amor”, de Clarice Lispector, Cassandra também sobrevivia dia a dia à “hora perigosa”: o momento em que todos os afazeres cessavam e ela se encontrava disponível para refletir sobre si mesma, divagando sobre seu momento e os caminhos que percorrera até ali.

Porém, nunca ocorrera de, num gesto inesperado, ter uma percepção intuitiva tão forte quanto aquela que experimentava agora, ao tropeçar no meio-fio e deixar rolar pelo chão as batatas e os limões do jantar de terça-feira.


Seus joelhos doíam com a queda, mas era a visão dos limões rolando pelo estacionamento que desacomodavam seus pensamentos, e rompiam sua bolha protetora. A vida a desafiava, e percebia agora que seu desejo de controlar tudo era infundado, uma ilusão para proteger-lhe da própria existência.

A necessidade de uma ordem externa, de algo que aterrasse seus pés ao chão, eximindo-a de bancar o próprio desejo, agora já não tinha tanta importância. Quebraria copos e regras, definiria as próprias leis e defenderia sua felicidade com a fúria dos que se descobrem tão dignos dela quanto aqueles que gozam a vida sem culpa.

Não desejava magoar aqueles que amava mas, acima de tudo, não se acorrentaria em prol da alegria alheia.

Seria autêntica no querer e no não querer, desafiando o desejo de ser aceita a qualquer custo, rompendo o hábito de agradar aos outros se desagradando, se permitindo oscilar entre o arrebatamento e a renúncia sempre que invadissem sua alma.


O mundo se tornara um novo espanto. Não sabia lidar totalmente com a liberdade que a invadia, mas os limões que corriam para longe de seu alcance a lembravam de que a vida a desafiava, com ou sem o seu consentimento.

A nova existência doía, mas também inquietava, transformava e empurrava adiante. A serena compreensão dava agora lugar ao prazer intenso de não saber nada. Era uma mulher que acabara de ter uma epifania.

E mesmo sem saber o significado da palavra, voltou para casa menos atrelada à terra mas, surpreendentemente, mais consciente de si mesma…


Em todas as situações, ame a Deus, e todas as coisas cooperarão para o seu bem

Artigo Anterior

As pessoas destes 5 signos são as mais persistentes! Você é uma delas?

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.