A era dos relacionamentos de bolso…

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Quando tomei a decisão de escrever este texto, estava lendo sobre a liquidez do mundo moderno, conceito desenvolvido pelo pensador e sociólogo contemporâneo Zygmunt Bauman, o qual também discorre em seus livros publicados sobre o medo e o amor e a maneira como a modernidade afetou este último. Confesso que concordo em muitos pontos com este quase centenário homem.



Coincidentemente, eu estava pensando sobre os dilemas diversos que os relacionamentos nos trazem e, sobretudo, sobre as características que os relacionamentos adquiriram na atualidade: parece que não foram feitos para durar, tem prazo de validade, assemelham-se a investimentos realizados na bolsa, o qual estamos constantemente de olho no mercado para ver a hora de comprar e vender essas “ações”.

Se você vê os relacionamentos como meros investimentos, sinto informar que uma hora ou outra, vai se decepcionar. Não basta analisá-los sobre essa ótica.

Atualmente, as pessoas têm um pouco mais de liberdade para se relacionar, as possibilidades são muitas (as redes sociais estão aí para oferecer isso), mas reclamam que está cada vez mais difícil estabelecer laços duradouros, pois o discurso é sempre o mesmo: ninguém quer nada sério.

Lendo os textos de Bauman, podemos refletir sobre o quanto as redes sociais têm contribuído para isso, uma vez que se tem inúmeras opções e você sempre pode “trocar” a sua por uma melhor. O conceito de estar “conectado” infiltrou-se em nosso cotidiano e usamos essa palavra com frequência para nos referirmos a nossa rede de contatos ou amizades online. Visto que o contato real torna-se cada vez mais difícil, o sentimento de insegurança do vínculo e de sua sinceridade aumenta, possibilitando desfazer ou fazer uma amizade ou relacionamento com apenas um clique.


Com isto, diante da fragilidade e falta de qualidade dos relacionamentos, temos cada vez mais medo de nos envolver e, em função disso, mantemos nossos laços frouxos, o que nos permite desfazê-los tão logo apareçam as primeiras dificuldades ou frustrações de um relacionamento. Falta-nos um pouco de firmeza, pois estamos mal acostumados ao imediatismo diário e a disponibilidade de novos “produtos” e passamos a tratar os relacionamentos da mesma forma: tenha resultado garantido ou o seu dinheiro de volta.

Não temos mais paciência para as intempéries dos relacionamentos e tampouco para suas altas e baixas, como em qualquer coisa na vida.

Fruto disso é nosso sentimento de angústia e solidão crescentes, que apenas nos apontam que nos manter conectados na verdade, não nos trouxe tantos benefícios assim e nos sentimos ainda mais sozinhos do que antes; temos muitos contatos, mas dificilmente esses contatos são amigos íntimos que nos apoiam ou com quem dividimos confissões. São relacionamentos e contatos apenas para uma noite, um jantar ou uma balada no sábado à noite, quando a solidão bate e vem nos lembrar que nossos dias são breves.

Por essas e outras Bauman nos diz que temos cada vez mais relacionamentos de bolso; utilizamos quando nos convém e tão logo nos satisfaça os guardamos no bolso, ou tal como fast-food, lanche da tarde ou como você queira chamar, estão ali apenas para nos satisfazer prontamente, mas pecam em sua qualidade.


Famintos por relacionamentos de qualidade o qual não conseguimos nos empenhar em ter, caímos na armadilha da quantidade; e tudo bem se você não se importa em ter relacionamentos de longo prazo; o que me entristece é ver a descrença de quem um dia acreditou em relacionamentos razoavelmente bons e duradouros.

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Direitos autorais da imagem de capa: dolgachov / 123RF Imagens

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