Eu acredito mais em gente que se testou na própria pele

Eu sempre desconfio de quem tem as respostas na ponta da língua – afiadas, certas, prontas. Eu acho que tudo o que teve dúvida se constrói mais forte do que aquilo que parece ter tido sempre certeza.

Já percebeu que quem está mais perto de si mesmo se desconstruiu muito? Parou, questionou, avançou, mas também hesitou, recuou.

Eu sempre desconfio de quem tem as respostas na ponta da língua – afiadas, certas, prontas. Desconfio de quem sempre soube de si, de quem compra ideias prontas (sem nem olhar a data de validade), desconfio de quem não erra muito, de quem coloca tantas coisas no nome de Deus, de quem decora as respostas prontas.

Eu não sei… deve ser porque existem por aí muitas ‘universidades de vida’, talvez de vários tipos, mas penso que nesse caso – em se tratando da própria vida – não acho que ensino 100% à distância seja a melhor das opções. Existem por aí muitas ‘faculdades de vida’, e algumas delas propagam que é só você decorar a apostila, e você esquece de perceber que o estudo de campo é tão ou mais importante quanto.

Eu não sei por que, mas eu acredito mais em gente que testou na própria pele, e isso não tem nada a ver com não ter se prevenido, respeitado e se cuidado (a pele estica e absorve, mas também protege).

Porque eu acho que por mais que a gente possa fazer as melhores ‘faculdades de vida’, com as melhores bibliotecas (bem importante na ajuda), com os melhores amigos e psicanalistas, o caminho do próprio coração é só seu. E lá no silêncio do seu profundo tem algo que fala, é preciso aprender a fazer o mundo calar para conseguir se ouvir. E é preciso entrar e sair, sem ficar decorando o dicionário das vivências.

É importante aprender a ver e ouvir os ruídos do mundo, distanciar-se deles (quando finalmente conseguir um pouco) e observar e observar-se sendo no meio de tudo.

Mas, no percurso, a gente suja a pele, a gente constrói verdades que ficam tortas e depois temos que demolir as paredes e recomeçar do zero. No percurso, a gente ama errado, a gente se ama de menos, ama demais ilusões, mas a gente lava a alma e renasce. No percurso, a gente machuca a si mesmo e algumas pessoas próximas e depois aprende a arte de se aceitar humano, de se autoperdoar e de perdoar.

Por isso, eu desconfio mesmo de tudo que já nasceu muito limpo, muito belo, apoiado em mastros de fora de si.

Eu acredito mais em quem se ralou, se lavou, se perdeu, se achou, se construiu, enfim, mais forte justo por ter acessado as próprias fragilidades, por ter encontrado corajosamente a verdade íntima, e por ter encontrado a paz muito mais consistente de ter chegado em si mesmo.


Imagem de capa: cena do filme “Um pequeno favor”




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