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Há neve nas claras batidas…

E a cada dia, quero muito mais instantes aerados de amor, feito clara de ovo batida, na base do prato e do garfo multiuso, nas mais antigas cozinhas de que se tem notícias. 

Hoje filtro melhor meu tempo para a vida das emoções mais leves, vindas de um amor aberto aos detalhes e aos extratos, invariavelmente.


Amor que de tão exigente, nada exige, especialmente quando, com praticidade de segundos, intensifico apenas as emoções mais leves para junto de mim.

Isto ocorre quando um clique interno me faz lembrar o mais básico, e quase mais que batido: eu e o resto do mundo temos uma memória RAM!

Toda hora me lembro disto e, particularmente, a minha “mrun”, de tão rápida e genuinamente apta, só a mim cabe gerir.  E quero com isto dizer que: o que quer que sejam ou onde quer que estejam minhas emoções, neste meu “Adélia Private”, quem é senhora dela sou eu, ainda que contra ou a favor de mim mesma.

Meu amor hoje só se nutre de amor, da carne ou do osso (há carne de pescoço!), de lá de fora de mim, de cá de dentro de mim: dois mundos infinitos para os quais me reapresento, a cada momento, recepcionando-os com carinho, por todos os mistérios que trazem e todos os mistérios que afloram em mim, com a presença deles.


Meu amor só se nutre de amor, venha de onde vier, em relação às pessoas ou coisas, de Jesus ou de Deus, in off ou não.

E a cada dia, quero muito mais instantes aerados de amor, feito clara de ovo batida, na base do prato e do garfo multiuso, nas mais antigas cozinhas de que se tem notícias.

Eram claras que, com o maior domínio do ser humano batedor e seu adestramento, aparentavam e ficavam tão ”duras”, que o ponto ideal consistia em virar o prato de cabeça para baixo: a clara, de tão leve que ficava, ao mesmo tempo tinha que alcançar aquele ponto, de ficar inflexível e densa, na verdade talvez, de tão tensa, por tanto apanhar.

Voltando-se o prato normal sobre à mesa, a clara bem batida manualmente, era a ponta mais branca de um iceberg, maior ou menor, pela capacitação adquirida com o garfo, de quem se incumbia dessa tarefa.


Em casa, eu me oferecia sempre: “Mamãe, as claras eu bato”. E existia uma maestria tenra ali. Enfim, essa história de clara batida manualmente, pode ir longe, mocinha!

Tinham umas claras que não iriam em frente, enquanto outras ficavam perfeitas em rigidez e leveza, consistência e flexibilidade, ao nosso comando, e apenas para nos servir. A clara se fazia de meio e não de fim: ia ajudar o bolo, a omelete, o pudim.

Quem sabe pudesse ser um suspiro, ou a fofa, in natura, com a gema suavemente acrescida de açúcar e canela. Hum… Era gostoso, e é gostoso saborear hoje, nesta breve janela, aquele gosto de criança e as nossas tentativas de não mastigação, que dispensava o ato.

Às vezes me pego assim, sem claras, sem gemas, açúcar ou canela, apurando-me no paladar das sutilezas finas da minha vida, que têm melhor funcionado sem receitas.

Ainda em mim, um amor de recolhimento e de silêncio, instantes de paixão e de frisson, instantes naturalmente vitais de cuidados e puericultura, instantes essenciais de colo e silêncio, instantes de entretenimento e de inevitáveis saudades e devaneios, que abrem meu sorriso e deslocam meu olhar agora mais sábio e resgatador dos melhores tempos de viver e de lembrar.

Mas prefiro, a cada instante, decidir por novos experimentos e vivê-los intencional e intensamente.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: melnyk58 / 123RF Imagens




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