Individualidade versus individualismo: sobre os homens pudins e as mulheres gelatina…

10min. de leitura

1.- Introdução: um desabafo que é de todos.

Em meio à correria dos compromissos que temos de cumprir diariamente de maneira agitada e também surpreendidos pelas instabilidades do mundo contemporâneo, frequentemente me deparo com conhecidos ou não tão conhecidos que durante um desabafo, afirmam:



“Eu gostaria de ser eu mesmo e o resto que se dane! ”

A afirmação carregada de forte apelo emocional traduz não apenas o desabafo. Ela carrega uma certa mágoa talvez fruto de uma decepção, uma contrariedade ou até mesmo uma demonstração de indelicadeza ou desrespeito por parte da outra pessoa.

individualidade-versus-individualismo-capa-e-foto-01

O fenômeno que nos desperta a atenção não é o desabafo em si, pois este tipo de comportamento é decorrente de uma vida em sociedade.


O fato de convivermos em diversos contextos com diferentes pessoas e circunstâncias – inclusive aquelas da nossa família -, propicia situações similares. A nossa atenção é atraída por dois elementos que foram ditos pelo nosso irado interlocutor: “eu gostaria de ser eu mesmo” e “o resto que se dane”, com direito ao ponto de exclamação. Alguns até completariam a fala com um colérico e sonoro: “Assim ninguém aguenta! ”

Vamos então às devidas considerações.


2.- “Torna-te aquilo que tu és”.

O autor deste imperativo é um poeta lírico que nasceu na cidade de Tessália (Grécia) por volta de 520 a.C. Tendo produzido cerca de 17 livros, apenas 4 chegaram ao nosso conhecimento. Detentor de um ritmo alegre, entusiasmante, este poeta transmitia uma visão lúcida e ao mesmo tempo confiante a respeito da vida e das pessoas. Faço menção ao poeta Píndaro, que faleceu em 440 a.C. na cidade de Argos, também na Grécia.


Seus escritos destacavam a vitória dos atletas, bem como o heroico espírito que devia constituir as disputas olímpicas. Suas obras chamam-se “Odes píticas”, “Odes olímpicas”, “Odes neméias” e “Odes istímicas”.

Há duas citações de Píndaro muito convidativas. A primeira é a seguinte: “Em muitas situações, o silêncio é o que há de mais inteligente para uma pessoa ouvir”. Emblemático, não?

A segunda citação é o título da nossa conversa: “Torna-te aquilo que tu és” e é sobre este postulado que construo minha argumentação.

Os gregos tinham a compreensão de que o homem na condição de animal racional é um projeto inacabado. Nascemos com todas as potencialidades necessárias, mas não estamos prontos. Talvez nunca estaremos. No entanto, estas potencialidades aguardam os momentos fortuitos para sua manifestação.

É como se todos os recursos programados em nossa estrutura antropológica (nosso corpo, nossa mente e nosso espírito) aguardassem um desafio, uma batalha, uma olimpíada, uma oportunidade para se manifestar de maneira plena.

Ora, os jogos olímpicos atualmente são a cada quatro anos, mas a rotina do cotidiano se apresenta de maneira inexorável para nós a cada dia: todos temos os nossos desafios, os nossos desafetos, as nossas dificuldades. Mas também todos nós temos os nossos familiares, a nossa experiência, a nossa maturidade e principalmente, a vontade de acertar, de conseguir o melhor.

Tornar-se aquilo que nós já somos significa abraçarmos os desafios e os problemas com altivez e também com lucidez. Não subestimar a dificuldade e também não fugir dela. É também dos gregos – sempre eles – a máxima de que em cada dificuldade sempre haverá escondida a semente da oportunidade de transformamos as coisas e situações.

A capacidade desta percepção nasce da maturidade, um extrato que é o resultado alquímico que se processa no laboratório do nosso espírito e na fornalha do nosso coração. Nossos pensamentos, sentimentos e valores são a matéria prima da qual nos valemos todos os dias, seja nas grandes tomadas de decisão, seja no discreto cumprimento dos nossos deveres.

É como a vida por meio das pessoas e dos desafios nos sussurrasse e ao mesmo tempo gritasse aos ouvidos que só daqueles que estão preparados são capazes de ouvir: “Torne-se aquilo para o qual você foi construído. Saia da mediocridade da mesmice e diga por atitudes afinal a que você veio! ”


3.-  A individualidade como uma manifestação existencial da autenticidade em pessoas equilibradas.

individualidade-versus-individualismo-foto-02

O termo “indivíduo” é de origem latina. Grafamos individuus, ou seja: aquele que não pode ser dividido. Este processo de formação de um ser que não pode ser dividido é tarefa de toda uma vida.

Aquele pequeno ser indefeso recém-nascido é um ser humano quanto às características pelas quais ele se encontra. Mas ainda não é uma pessoa. Uma pessoa sob o ponto de vista das ciências humanas é – e deve ser – alguém capaz de responder por si própria aos desafios e demandas do seu tempo, do seu meio e da sua vida.

A indivisibilidade à qual o termo se encontra circunscrito é decorrente de uma íntima e intransferível consubstanciação entre a dimensão corporal (soma), a dimensão psíquica (psique) e a dimensão espiritual (ânima): corpo, mente e alma nos constitui e nos forma. Nossa identidade é tridimensional, portanto.

Retomando o diálogo com o nosso nervoso personagem, ainda ecoam o seu desabafo: “eu gostaria de ser eu mesmo”. Ora, não há necessidade do desejo ou do propósito. Nós já o somos! A questão é de outra natureza. Nossa individualidade não deve se sobrepor aos demais. Ser nós próprios, termos nossa individualidade significa termos a nossa sustentação existencial encimada sob duas premissas:

  1. a)   A primeira delas é de que há valores, princípios e paradigmas pelos quais eu escolho livremente viver e construir o meu projeto de vida. Alguns valores pelos quais vale a pena viver e outros que não valem a pena. Um homem, uma mulher que não se pautam por valores ou princípios acabam se comportando como “homens pudins e mulheres gelatinas”. Ora tremem para um lado, ora tendem para o outro. A inconstância é a sua característica primeira. São seres adocicados e enjoativos porque se repetem. Não há sustentação em suas apreciações.  Não há segurança em suas tomadas de decisão. São voláteis como um perfume que inebria, mas não sustenta.

 

  1. b)A segunda premissa explica-nos que não temos o direito de impor a nossa cosmovisão e compreensão do mundo. A individualidade requer respeito, convivência, serenidade e um conjunto de emoções, resoluções e convicções que propiciam a uma pessoa madura conviver com outras formas de existência humana. O que é importante, valoroso, especial para você pode não ser para o outro. A reciprocidade também é verdadeira. Pense nisto.

4.-   O individualismo como uma manifestação existencial da imbecilidade em pessoas desequilibradas.  

O individualismo é o egoísmo do indivíduo. Tal como uma força centrípeta descomunal, o individualista que ser o centro do universo para que toda a existência se manifeste em torno deste ser divino.

Para a Física, o dinamismo da força centrípeta é capaz de puxar um corpo para o centro da trajetória ao qual ele se encontra vinculado. Isto se processa através de um movimento circular.

individualidade-versus-individualismo-foto-03

Uma pessoa individualista possui e alimenta uma visão distorcida da realidade. Ele não reconhece a importância e o valor do que está fora dela. Daí a associação entre uma pessoa que é individualista ser uma pessoa egoísta. O termo ”ego” em grego significa “eu”. Ora, quando alguém possui um ego voltado para si mesmo, para o seu umbigo que é o centro pelo qual ele esteve vinculado em sua vida intrauterina, podemos então deduzir que o individualista é um egoísta e, portanto, um egocêntrico.

Por consequência, é claro que essas pessoas querem o “resto se dane”, pois entendem que fora de si não existe possibilidade de uma vida que valha a pena ser vivida. Seus valores estão voltados em apenas um ser neste planeta: ele próprio.

É triste e aborrecedor encontrar gente assim. É cansativo, é desanimador, pois são pessoas que além de serem inconstantes, são também inconsistentes, pois não possuem o enrijecimento de um caráter moldado na fornalha da vida. São frios, pois no coração não reside vida, há uma representação teatral de um personagem que não existe. Na verdade, o individualista interpreta seu papel para uma plateia solitária, qual seja: ele próprio.

Baixe o aplicativo do site O Segredo e acompanhe tudo de pertinho. Android ou IOS.





Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.