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Infinita liberdade…

Quando soubermos dançar ao sabor do vento, seremos livres. Esta é a mestria que nos é dada a aprender, aqui, na Terra. A dança é a mais perfeita simbiose de seres em comunhão. Livre. Leve. Solta. Sinto toda a densidade perder forma.



Para sermos felizes não precisamos de nada que provenha do exterior, precisamos apenas de nos encontrar, sarar medos ancorados à alma. Quando era criança adorava dançar, aos dois anos já dançava como o vento. Hoje não vivo sem música. Todavia, algures na transição da adolescência para a idade adulta, perdi o gosto pela minha liberdade.

Deixei de dançar passando a andar de rojo, aos trambolhões. Nunca tive habilidade para grandes malabarismos, confesso. Sempre que maltratamos a vida, espantamos a liberdade – A vida só se torna possível quando nos sintonizamos no mesmo respirar. Ao seguir caminho, outros complementarão os nossos passos, passos que devem ser dados individualmente. Não se trata de egoísmo, mas de coerência.

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Haja a mínima orientação. De nada nos adianta andar à deriva, no mais perfeito caos, se não tivermos um destino onde atracar. Começa a caminhar e outros irão seguir-te as pegadas, no meio da chuva, da lama, da escuridão. Nunca esperes nada, consciente que mereces tudo. A vida ensina-nos, por vezes forçosamente, a contentarmo-nos com o nada, o nada que brota do vazio, o vazio que se revela surpreendente. Só o silêncio contém as respostas que procuramos.

O ser humano tem obrigação de cultivar moderada dose de desapego material e emocional para que nunca se sinta escravo, nem de si, nem dos outros, nem do sistema. Não obstante, devemos fazê-lo sem descurar semelhantes; a apatia remete-nos para uma racionalidade primitiva, incapaz de reconhecer alheias carências. A razão comporta falhas, falhas que nos privam experienciar o agora.

Quando pensamos em demasia, permitimos que duvidas e medos surjam em catadupa. Morte lenta e dolorosa. Sempre que não obtemos respostas somos devorados por inúmeros porquês, porquês que nos perseguem cruelmente, porquês que depredam a mente com futuras preocupações. E se (…), hipoteticamente falando. Atenção: somos a nossa salvação. Os seres que conhecemos e os meios que possuímos são ferramentas suficientes, que servem a nossa finalidade, aqui, na Terra.

Muito tenho ouvido falar em estruturas. Nenhuma estrutura material sobrevive eternamente às intempéries do tempo. Muitas delas são abaladas por cataclismos que nos sobrepujam violentamente. Precisamos sim, de inabalável força interior, altivo alicerce que nos reerga dos escombros, qual casa mutante capaz de suportar abalos sísmicos. Milhões de seres humanos levam amorfa existência, sem a mínima dignidade. Só a compaixão apanha estilhaços de vidro.


A força interior devolve visão aos cegos e motricidade aos paralíticos. Complicada tarefa resgatar individuais liberdades. Uma tragédia. Esqueçamo-nos por instantes o que outros dizem ou pensam sobre nós. Que sentimos? Apenas o corpo nos limita!

Dentro de nós habita uma voz que nos guia, sábia presença que nos levará até à iluminação. Interno chamamento visa rasgar fumarenta cortina que nos impede de sermos autênticos, agindo contra os princípios de divina essência. Pouco ou nada importam conselhos dados, planos feitos ou palavras escritas. Sem mim nada eu sou, nada eu sinto, nada eu vivo.

Desconheço a minha verdade, embora a saiba mutável. Raramente a minha verdade coincidirá com a tua. A verdade é-nos arrancada a ferro e fogo. Parte de peculiar verdade é-nos revelada quando recusamos sentir os antagonismos da vida. A verdade? Talvez a verdade seja tudo o que recusamos ora ver, ora sentir.

A verdade continua encoberta porque ela faz-nos colidir contra a realidade. A verdade alerta-nos para a própria miséria, obrigando-nos a questionar série de valores em desuso. A verdade torna-nos conscientes à luz de limitações, imperfeições, inclusive à luz de brutalidades que outrora fomos alvos. A verdade liberta.


Que fazer para amenizar o sofrimento? Nada. Devemos vivenciar a dor que ele acarreta. O sofrimento libera traumas de fundo. De nada adianta evitar o agora. Meditemos silenciosamente, a fim de intuir os apelos do coração. Que mensagem esconde a tristeza? Por exemplo. A tristeza faz parte de profunda dor sentida ao nível da alma. Mas a nossa mente, em constante turbilhão, impotente ao ver que as trapaças do ego, aos poucos, deixam de exercer domínio sobre nós, paralisa-nos.

Nós, seres humanos, contemos o melhor e o pior da essência: somos luz e escuridão. No fundo, sabemos que o lado bom deve prevalecer para que possamos triunfar. Jamais devemos travar prodigiosos combates descorando que somos seres angelicais provenientes de outra dimensão. Ansiamos chegar ao leito prometido.

Temos fome, de vida! Quantos se transformam em desprezíveis criaturas em busca de si mesmo? Tantos se perdem corrompendose ante facilitismos que a sociedade oferece. Nesta luta insana, muitos de nós descuram o caminho e desgraçam-se. Continuamos a julgar e a condenar os outros porque não sabemos lidar com a sombra que nos acompanha. Encontramo-nos feridos, cujos ferimentos corroem a agilidade das asas.

Cabe a nós assumir a responsabilidade dos próprios actos, maldito sentimento de culpa. Ignoramos, ignoramos até mais não, os sinais que o universo emite. Lutamos, desenfreadamente, sem dar espaço a cedências. Negligenciamos tormentas, dando origem a vastas ciladas internas. Erguemos muralhas à nossa volta, construindo mais e mais camadas de sombra. Porque dependemos de outros?


Porque permitimos que nos magoem? Porque magoamos? Porque não nos temos, não nos conhecemos, não nos amamos.

Ninguém se conhece em profundidade. O medo paralisa, letargia que nos torna seres inertes, indiferentes a paixões, aspirações da alma. Dou por mim num mundo banhado a covardia. Todos se calam, todos consentem que a violência se perpetue.

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Que é a liberdade? Liberdade… Liberdade, é saber viver um dia de cada vez, livre de julgamentos e toscos propósitos. Liberdade é saber respeitar quem somos, amando todas as imperfeições. Liberdade é saber dizer não a vãs esperanças, recusar viver sonhos que não nos pertencem. Promessas, nunca as faço, pois sei que não existem plenas certezas. Perduramos preocupados com eventuais acontecimentos externos, esquecendo-nos que dentro de nós há uma voz que se quer ouvida.


Eu podia ter uma vida diferente, tu podias ter uma vida diferente, mas todos estagnamos ante memórias extintas pelo tempo. E o tempo nunca volta atrás. Da vivência devemos apenas extrair e guardar bons momentos, momentos que nos fazem sorrir, que nos tornam seres pacíficos. Não devemos acreditar em promessas, acreditemos antes em atitudes. Os outros, esses outros, encontram-se sedentos, famintos, ao virar de cada esquina. Estes pobres diabos procuram consolo. Sois dignos de pena. Muitos ficarão pelo caminho, caminho vazio e temido.

Estranha liberdade a nossa, onde séculos de opressão continuam a ditar a sentença. Homens e mulheres tomados reféns clamam perdão por todos os crimes cometidos. Pessoas portadoras de auras negras sangram, visivelmente, nos asfaltos mais esburacados. Nem no seu sangue encontraremos prana. Eis as mentes que depositam no mundo desamores que ofuscam global iluminação.

Se ter um pecado é mau, ter todos é calamitoso, desastre que condena vindouras gerações. Árdua tarefa lapidar a mente, para que possamos viver sem ultrajes à verdade.

Torna-se cada vez mais urgente finalizar o processo de lapidação. Todos os seres humanos são amados por alguém, inclusive o ser mais infame. Continuamos a viver uma farsa por nós enleada. Sem grandes imposições mortais, a alma sente.


Dedo podre para o amor… Como livrar-se dele?

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