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Intimidade: não quero ter um milhão de amigos e distribuir emojis de corações a toda gente

A primeira coisa que me lembro de fazer, e é quase tão automático quanto abrir os olhos pela manhã, é olhar o que aconteceu durante as poucas horas em que estive a dormir (cada vez durmo menos!).

Recebo a mensagem de alguém que me segue a dizer que sou encantadora e muito simpática. Nunca nos vimos, nem nos conhecemos de verdade, e ainda assim, já tem uma opinião sobre mim.


“Teu perfil é fantástico! Queria muito te conhecer. De repente um cafezinho?” E então, já parou pra pensar que posso não ser o que diz no meu perfil? Já passou 24 horas do seu dia comigo?  Acordou comigo e enfrentou o meu bom humor num daqueles dias que saímos prontos para torcer o pescoço de alguém? É difícil não haver um dia em que não recebo um pedido de namoro ou de casamento de um dos meus seguidores.

É tudo tão fofo que parece mesmo um grande faz de conta.

Vasculho entre as mensagens diretas, os comentários dos meus textos e, entre eles, os depoimentos de pessoas que dizem estar passando pelo mesmo que eu, que sentem como eu, que concordam ou que discordam sobre os temas que escrevo, que contam como foi o seu dia, que me consultam sobre a melhor alternativa para os seus dilemas.

Choro junto. Rio junto. Comemoro junto. Mas não conheço a nenhum dos meus leitores. O que sei é a versão do que se passa com eles. São as histórias que me emocionam. São as histórias que nos ligam e religam. Mas não conheço os meus vizinhos e tão pouco as suas histórias.


Quisera eu ter as respostas todas para tudo que me perguntam. Meus leitores têm em mim uma confiança que eu mesma não tenho.  Sou indecisa, muitas vezes me arrependo do que escolho e determino e, não raras as vezes, tomo as decisões um pouco tardias e equivocadas porque já vem tarde e, portanto, defasadas no espaço-tempo.

As mensagens vêm com figurinhas com beijinhos e carinhas sorridentes. Têm flores, trevos e gifs animados que sugerem uma intimidade maior do que a prevista.

Ainda reluto em mandar emojis com beijinhos e corações. Parece-me que não os posso distribuir a toda gente, afinal, não dá pra amar todo mundo. Nem desejar sorte pra todo mundo e outras coisas.

Então, somos tachados de frios e pouco à vontade com a tecnologia. Não é verdade. Eu não sou um unicórnio feliz e fofinho pronto para ser amado e apertado. Eu quero é ganhar a corrida, vencer os obstáculos, lutar pelo primeiro prêmio. Não quero ter um milhão de amigos e distribuir emojis de corações a toda gente. Senão, provavelmente terei de convidar a todos para virem ao Natal e não tenho uma casa tão grande quanto isso.


As fronteiras entre ser um amigo ou um namorado, um colega ou um amigo, um conhecido ou um desconhecido estão a cada dia mais tênues. E isso é motivo de confusão. Tenho um amigo ou um namorado? Quando deixa de ser um desconhecido e passa a ser um conhecido? E um desconhecido pode ser um amigo?

Intimidade hoje se resume a troca de alguns emojis e de trocarmos os nossos números de WhatsApp.

Quando isso acontece, temos quase toda a certeza de que estamos a um passo do mais secreto que há entre duas pessoas. Todo o resto que poderia vir a ser intimidade já está lá nos nossos perfis, escancarado e emoldurado, à espera das curtidas e dos comentários, dos compartilhamentos e do mais importante: dos seguidores.

Quem tem seguidores, dizem alguns, tem tudo. Tem família e torcida. Tem bom dia de manhã e boa noite antes de dormir. Mesmo que sejam mensagens replicadas entre todos e não seja só pra você. Mas tem. Não está só.

Já dividi a minha vida com quem não me dava bom dia, nem com tanta disposição, nem com imagens de filhotinhos e flores. Portanto, um bom dia vindo pelo WhatsApp é aquela brisa num daqueles dias de verão escaldante.

Mas o bom mesmo, meu bem, é aquele bom dia ao pé do ouvido. Aquele bom dia gostoso, com café na cama, vendo o dia chegar devagarinho.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF Imagens.




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