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Não existe castigo divino

Por causa do meu jeito diferente de olhar a vida arrumei muitos conflitos, por não aceitar como verdade determinados conceitos religiosos que tentavam colocar na minha cabeça, deixando-me com medo do castigo de Deus.



Desde criança, sempre fui uma pessoa observadora e questionadora, buscando compreender as coisas de forma profunda, sem ilusão e com os pés no chão. Por causa do meu jeito diferente de olhar a vida arrumei muitos conflitos, por não aceitar como verdade determinados conceitos religiosos que tentavam colocar na minha cabeça, deixando-me com medo do castigo de Deus.

Uma época, eu ainda morava na roça, a minha mãe me repreendeu, porque era semana santa e eu estava diante da mesa do almoço, na minha própria casa fazendo oração, sem camisa. Ela disse: Jamais se dirija a Deus sem camisa. Pois Ele não irá gostar de sua falta de respeito.

Baixei o tom de voz para não soar como desaforo e com serenidade no jeito de falar eu disse: Não entendo esse Deus, no qual a senhora se refere e nem acho coerente da parte dele, que é uma inteligência tão suprema ter me mandado para a terra completamente pelado e agora ficar com raivinha de mim só porque estou fazendo uma oração sem camisa.

A minha mãe ainda tentou me responder, mas, não encontrou um argumento que pudesse me calar. Porém, respeitando a sua autoridade, eu me levantei da mesa e fui colocar uma camisa.


Dias depois ligamos a TV para assistir ao Globo Repórter e o tema do dia era os mistérios da fé e o poder dos rituais indígenas, mostrando que os índios antes de sair para caçar, acendem uma fogueira, dão-se as mãos e, completamente nus, fazem uma roda xamânica, pedindo a Deus fartura e proteção.

O mais interessante é que, mesmo os índios se comunicando com Deus, completamente nus, acabam recebendo a bênção e a proteção divina que pedem. Eu olhei para a minha mãe e falei:

Mãe, existem dois Deuses? Ela respondeu: Claro que não. Deus é um só para todos. Eu falei: É que o seu Deus se irrita com quem faz oração sem camisa e vira as costas, por achar que a pessoa está agindo com desrespeito. E o Deus dos índios é tão bondoso que aceita a oração deles, sem roupa, e ainda traz a caça que eles pedem e os protege dos perigos que há na floresta.


A minha mãe riu e disse: Você não tem jeito mesmo. Em outra ocasião a minha mãe passou a usar algumas chantagens tentando me impor medo de Deus para me manter nas rédeas. Por exemplo: Tudo que eu fazia fora do normal ela dizia: “Não faça isso que Deus castiga!” Ou: “Não aja assim que a mão de Deus vai pesar no seu lombo.” Mas um dia ela me obrigou a ir à missa e, para minha surpresa, o padre começou a missa dizendo: Irmãos, Deus é amor, Deus é perdão, Deus é luz e Deus é só quer o nosso bem!

Eu olhei para a minha mãe e perguntei: O seu Deus é o mesmo do padre mãe? Porque as informações não estão batendo. Ela arregalou os olhos irados e rangendo os dentes de raiva por ter sido desmascarada pelo padre.

Enfim, existem alguns conceitos negativos que recebemos e repassamos para outras gerações, sem questionar se os valores que nos transmitiram são coerentes. No entanto, conceito não é uma verdade absoluta que se aplica a todas as culturas.

Por exemplo: se uma linda mulher estiver usando uma fantasia de carnaval, ela será vista apenas como um símbolo sensual e outros adjetivos pejorativos que usam para definir a sua imagem. Mas se uma mulher pertence a uma tribo indígena estiver completamente nua dançando em torno de uma fogueira, mesmo que ela tenha um corpo escultural, ela é considerada uma deusa! Observe como muda o valor da figura de forma conceitual.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: Irochka / 123RF Imagens

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