O que há de ser…

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Desde muito cedo, a nós é dado uma capa para vestir. A essa capa chamamos imagem e vamos aprendendo a usá-la durante toda a vida. Muitos investem na sua imagem, deixando-a atraente, misteriosa, tentadora ou interessante. Outros não ligam tanto, e por isso aparentam certo desleixo.



Seja como for, no decorrer da vida vamos construindo essa imagem. Alguns traços nem nos pertencem mais, mas, pela imagem que nos foi atribuída, continuam a fazer parte do nosso caminho, arrastando-se como caudas, esgueirando-se atrás do nosso passo.

Essa imagem nos cobre há tanto tempo, que frequentemente começamos a acreditar que ela faz parte do nosso ser.

É fácil perder-se na seda multifacetada que nos veste, que nos desliza a alma. Muito mais fácil corresponder às expectativas do que reinventar essa imagem. E quando a imagem é boa? Tudo que sempre quisemos ser? Aí é mais gostoso ainda deixar que aquela armadura reluzente nos defina e nos mantenha erguidos perante toda a sociedade.

O que descobri, no entanto, não foi prazeroso. Descobri que não sou a pessoa que minha imagem aparenta ser. E acredite, quando digo uma coisa: eu queria ser. Porque por mais que a imagem contenha defeitos, ela também consegue projetar exatamente a pessoa que sempre quisemos aparentar ser. Tudo que você admira na vida e quer, inconscientemente vai para um local do cérebro onde aquilo é processado e projetado em você, ao longo dos anos. Você se torna quase tudo aquilo que você deseja ser: exceto que você não é.


Parece uma coisa boba, mas quantos já pararam para pensar no que realmente eles seriam se nunca tivesse havido nenhum tipo de pressão social? Vestir-se-iam da mesma forma, teriam o mesmo cabelo, namorariam as mesmas pessoas e se teriam o mesmo emprego. Fomos direcionados desde muito cedo, e no caminho do que é ser bem-sucedido, não tivemos tantas escolhas assim.

Podemos nos rebelar, ir contra o sistema e dizer que nada daquilo importa. Mas, no fundo, ninguém quer ser visto como alguém que não deu certo.

Fiquei triste quando descobri que, apesar de que minha imagem corresponde às expectativas que tinha de mim há uns anos atrás, parte daquilo não era verdade. Consegui sim, respeito, admiração. Não vou dizer que não tenho mérito algum, porém, percebo que poucos me conhecem a fundo. Ora, se até um dia desses, eu mesma não era ciente?

Nós somos como um cristal, com vários ângulos, vértices, lados. Cada um recebe a projeção de uma das facetas, porém nunca do todo. Eu sempre soube disso, mas achava que de dentro, eu via o todo. Todos os lados. Não imaginava que, apesar de ter uma visão panorâmica das coisas, eu nunca poderia estar do lado de fora.


Descobrir que não sou aquilo que pensava, ajudou-me a desconstruir minha imagem. Não toda, pois tudo é um processo. Mas um tanto quanto estilhaçar um espelho, e descobrir que aqueles pedaços jamais vão se encaixar novamente da mesma forma.

É um ato de entrar em guerra e paz consigo mesmo. Entendi que não sou tudo aquilo que queria ser, mas que isso terá de bastar. Percebi que meus defeitos podem ser maiores do que eu deixo as pessoas verem, e, ainda assim terei que conviver com eles. Até interiorizei o fato de estar buscando a felicidade nos lugares errados, muito mais naquilo que esperam de mim – de acordo com a minha imagem – do que naquilo que eu sinto de fato.

Que sensação esquisita, libertadora e aterrorizante! Porque sei que quanto mais verdadeira eu me tornar, mas em paz estarei comigo mesma. E mais perto da real felicidade. Porém, isso nunca vai ser fácil.

Porque ao invés de alimentar uma imagem, eu terei que deixá-la minguar, pouco a pouco, suspiro por suspiro, até que sua existência não passe a ser mais do que uma miragem.

Os outros, dirão que sou louca. Louca por que isso também faz parte da minha imagem. Dificilmente hão de inventar novos adjetivos assim de prontidão. Vamos seguir com o roteiro, é sempre mais seguro. Alguns verão além dos meus propósitos, talvez até me admirem por isso. Haverá quem condene: já que a imagem faz parte das boas convenções sociais, e não há vantagem alguma em se mostrar assim nua para o mundo. Alguns próximos, levarão um susto: então, você é assim?

Não sei. Só saberei quando terminar o serviço. Essa reforma íntima que vai me custar todos os pilares, muros, e alicerces que construí durante toda a minha vida.

E depois? Não tenho respostas concretas – visto que ainda não cheguei nesse patamar. Mas só posso adivinhar uma coisa: desconstruindo tudo o que há dentro de mim, imagino que poderei levitar. E que nada mais me segura.

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Direitos autorais da imagem de capa: photopiano / 123RF Imagens

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