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O refúgio do ideal…

“I have a dream” disse Martin Luther King no seu discurso anti-racismo. Essa frase entrou para a história como um dos símbolos mais fortes que conhecemos, na luta por um mundo melhor. Eu também tinha sonhos. Quando criança, eu achava que aos 40 anos, tudo seria perfeito. Eu teria uma bela casa, um bom trabalho, que pagasse bem e me realizasse como pessoa. Um marido bacana, amoroso, que me desse flores no aniversário.



Dois filhos, um menino e uma menina, com diferença de dois anos. Teria superado a mania de comer doces e chocolates, e teria um corpo perfeito. Minha vida seria um comercial de margarina, tocando Marisa Monte “Deixa eu dizer que te amo”.
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Então…minha vida não é ruim, na boa. Se eu comparar com a maioria das pessoas, ela é muito, muito boa. Mas não é nada parecida com isso. Com o tempo eu fui percebendo que não dava. Relacionamentos foram desfeitos, o trabalho tem altos e baixos, as crianças nem apareceram. Ainda como chocolate que nem doida. Meu corpo é lindo, do meu jeito, não tem doença nenhuma, mas não é perfeito. A casa é boa, mas tem que limpar todo dia. As relações estão sempre sendo construídas e o dinheiro precisa sim ser controlado.

Mas a criança mimada dentro de mim grita: NÃAAAAOOOO. Eu não quero isso! Eu quero minha vida perfeita. E aí dói. Angustia. Quando eu vejo que está tudo um caos controlado eu corro pro chocolate, pra Netflix. Questiono meus relacionamentos, minhas escolhas profissionais, minha conta no banco. Tudo fica errado assim, de uma hora pra outra. Buscamos alívio para as nossas dores. Recorremos sempre aos nossos vícios para continuarmos levantando da cama de manhã: sexo, trabalho, cigarro, comida, chocolate, compras. O mundo narcísico e louco vai criando cada vez mais dependências, sonhos para acreditarmos. Faça isso, ou aquilo, e tudo vai mudar. Você está no controle, acredite!

No filme Sucker Punch, uma moça é a acusada pelo padrasto de ter matado a própria irmã. Na verdade, um truque que ele usou para ficar com a herança da mãe dela. Ela é internada num manicômio, como louca. E lá dentro o sofrimento é terrível. Ela quer escapar, quer fugir. Então a mente dela elabora uma história complexa, dela presa num bordel. As companheiras de cela são suas colegas de profissão. Os enfermeiros são gigolos e ela precisa salvar a si e todas de tamanha dor e sofrimento. Inicia uma jornada que vai libertá-la de alguma maneira. Sim, ela cria um mundo ideal. Um mundo onde ela não é “louca”, um mundo onde ela tem um poder de mudar as coisas. Ela passa por jornadas e mais jornadas e no final, vence. De uma maneira muito diferente, mas não sou de dar spoilers.

Criamos estes mundos o tempo todo. Acreditamos no mal na gente mesmo. Acreditamos que somos pouco, que não merecemos amor, que somos fracos. Acreditamos nas coisas que o mundo colocou na nossa cabeça. Somos o padrasto mal, que nos julga e condena a uma sentença de dor e sofrimento. Nos trancafiamos num mundo de dor, esperando o dia, aquele dia, em que tudo vai ser diferente. Aquele dia mágico em que as nossas limitações não vão existir. Aquele dia em que escolhemos tudo diferente, e temos uma vida diferente. Que nada do que nos “limita” , ou pior, que nenhuma das nossas sombras esquecidas, possa nos dominar. O dia que seremos perfeitos: corpo perfeito, profissão dos sonhos, sexualidade escolhida e não imposta, a família perfeita, as pessoas fazendo tudo o que a gente quer do jeitinho que a gente quiser. Nos refugiamos naquilo de uma maneira tão complexa que esquecemos completamente de quem nós somos, do que realmente queremos e das responsabilidades que já adquirimos. E o pior dos piores, enfiamos as pessoas nisso.


Colocamos os outros nas nossas estantes, recolhendo trunfos para o dia mágico. Aquele dia em que tudo será perfeito. Recolhendo as armas, uma a uma, que precisamos para a nossa libertação. Quando a libertação real não é nada disso. Você é o que você é. Você não escolheu quase nada na sua vida e continua não escolhendo. Esse corpo é sua herança genética e a não ser queira virar outra pessoa, vai ter que conviver com isso. Sua sexualidade veio com você, você não é gay, hetero ou bi porque decidiu. Sua maneira de lidar com o dinheiro veio dos seus aprendizados, as coisas que seus pais te ensinaram, as verdades que o mundo impôs para você.

E sim, você compra demais porque enfiam isso na sua cabeça de uma maneira louca e cruel. Você fez escolhas, muitas das vezes, baseado nos outros. Você se condenou por crimes que não cometeu. E você sempre foi o seu padrasto, seu juíz, seu médico, e sua cura.
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Sim, você é a sua cura. E ela não está em nada fora de você. Não está em nenhuma pessoa, em nenhum lugar. Ela está em aceitar seu processo! Está em aceitar quem você é e o que você se tornou. Você não precisa mudar nada. Não precisa de “força de vontade”. Precisa de aceitação, precisa se amar a ponto de se perdoar por não estar em nada parecido com a perfeição dos seus sonhos, está em saber que tudo está certo do jeito que está e que a dor sempre fará parte da sua jornada, porque as coisas são assim. Você está só. Precisar abrir mão de cada parte idealizada de você. Precisa focar no que importa e em quem realmente, de verdade, se importa com você. Importa, traz para dentro, cuida, aceita.


Aceitar-se é muito difícil, mas é a única maneira de começar um processo de mudança real. Perceber os erros que continua cometendo, mesmo sabendo que são erros. Os vícios que continua alimentando e, principalmente, desfazer seus universos paralelos de perfeição. Viver a loucura que é estar vivo e ainda assim, ainda vendo tudo, sentir paz dentro de você.

Pare de se refugiar! Olhe para você e use a sua verdadeira coragem para isso. Entenda que o mundo é só o mundo. Que as pessoas são o que elas são e que ninguém tem a obrigação mágica de te fazer feliz. Vire as costas e vá embora, se e quando necessário. Chore até secar a alma de toda mágoa. Mas não se esconda mais de você. Por mais que doa. Acredite, você pode! Não tenha medo disso.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Amor. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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