O verdadeiro perdão nasce de um amor que não procura seus próprios interesses. Esse amor “não contabiliza os erros” (1 Coríntios 13:4,5)

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Cartão de crédito de perdão.



Como de hábito, ao escrever, gosto de pesquisar dois magníficos livros de psicologia: o dicionário e a Bíblia. Como a linguagem determina a visão de mundo, nada melhor do que conhecer os significados mais profundos dos termos para uma compreensão mais precisa e aplicação na vida diária, mantendo a boa comunicação e do bom relacionamento com os nossos semelhantes.

Linguisticamente, de acordo com o dicionário Houaiss, perdoar é o “ato pelo qual uma pessoa é desobrigada de cumprir o que era de seu dever ou obrigação por quem competia exigi-lo”.

Ou então, conforme o site Ensinos Bíblicos:


Na Bíblia, a palavra grega traduzida ‘perdão’ quer dizer literalmente ‘abrir mão, deixar ir embora’. Perdoamos outros quando deixamos de guardar ressentimento. Além disso, abrimos mão de qualquer compensação pelas mágoas ou prejuízos que tivemos. A Bíblia ensina que o verdadeiro perdão nasce de um amor que não procura seus próprios interesses. Esse amor ‘não contabiliza os erros’. (1 Coríntios 13:4,5)  

Mas, voltando à linguística, deixar o que ir embora, observamos que, na dinâmica do perdão, existe um processo de julgamento do comportamento do outro, seja em termos de dívida financeira, moral, ética, emocional…, tendo como consequência a retirada do nosso afeto pela outra pessoa e a transformação desse afeto em ressentimento.

Então, perdoar significa sermos capazes de deixar que as expectativas frustradas em relação ao outro possam ser levadas pelo rio da vida, para que as mágoas ou más águas não fiquem retidas em nosso coração.


E esse é um ponto fundamental no processo de perdoar, que se inicia com o acolhimento de nossos sentimentos negativos de raiva, desejo de revide ou mesmo vingança, como reações ao não atendimento das nossas expectativas. Esses sentimentos precisam ser esvaziados, com humildade e reconhecimento de nossa imperfeição humana, ao esperarmos que o outro nos corresponda e siga nossos modelos de mundo, seja em ações ou sentimentos condizentes com nossos valores.

Jean-Yves Leloup, um dos fundadores da Unipaz (Universidade Internacional da Paz), ensina-nos que “perdoar significa nos desidentificarmos com os erros do outro” e com os próprios erros. Significa que a liberação de nossos ressentimentos abre espaço para o novo em nosso coração, permitindo-nos seguir adiante em nossos próprios caminhos para que a atenção fixa no erro do outro não nos retenha. É preciso deixar que o passado realmente fique no passado.

Compreendendo o sentido e o processo de perdoar, ainda precisamos identificar quem será o receptor do pedido ou da concessão de nosso perdão, assim temos o perdão quádruplo:

1. Perdoar a si mesmo(a): para algumas pessoas, esse primeiro tipo de perdão pode ser o mais difícil, porque tem como pré-requisito a humildade necessária para que possamos nos reconhecer como seres falhos e imperfeitos. Aceitar justamente essa dimensão humana que tentamos esconder ou combater na tentativa de alcançarmos a perfeição divina.


2. Pedir perdão a Deus pelos próprios erros: este segundo tipo de perdão, de certo modo, ainda está relacionado ao requisito de humildade porque, se consideramos que não somos dignos de ser perdoados, ficaremos nos flagelando emocionalmente por sentimentos de culpa decorrentes de conceitos autopunitivos, como se o castigo fosse necessário para a nossa aprendizagem. Esse é um padrão humano. Compreender que Deus é Pai amoroso e que o nosso sofrimento não tem nenhuma utilidade para o perfeito plano divino nos liberta da busca de autopunição desnecessária à nossa evolução.


3. Pedir perdão a quem tenhamos prejudicado com os nossos erros: a humildade e o arrependimento sinceros, decorrentes do reconhecimento de nossos erros, ajudam-nos a buscar o perdão daquele a quem tenhamos prejudicado, levando-nos à possível reparação de nossos erros. Daí a importância da reflexão diária sobre nossas ações, no contexto em que vivemos, tendo como foco a nossa própria evolução. Que possamos nos voltar para a reconciliação e o fechamento das situações conflituosas, pondo fim aos nossos remorsos e às mágoas daqueles que cruzaram os nossos caminhos diários.


4. Perdoar àqueles que nos prejudicam com seus erros: tendo exercitado os três primeiros tipos de perdão, podemos alcançar a prontidão necessária para deixarmos que o rio da vida leve por água abaixo os erros alheios, como espinhos que vão flutuando na correnteza do tempo até se perderem no horizonte longínquo.

Assim livres dos sentimentos negativos em relação aos nossos erros e aos erros alheios, poderemos seguir a caminhada da vida, com os passos leves e harmoniosos gerados pela consciência de que tudo passa, deixando-nos a aprendizagem das experiências vividas. Para isso, recebemos um cartão de crédito diário de 490 perdões… Com certeza, no decorrer da vida, nem precisaremos utilizar todos esses créditos, mas aqueles que forem bem aplicados resultarão no alcance da felicidade, que não tem preço…

 

Direitos autorais da imagem de capa: Annie Sprat/Unsplash.

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* Matéria atualizada em 16/04/2020 às 3:25






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