Para não esquecer a tempestade

Começaremos pelos versos e com eles terminaremos. Às vezes, é preciso começar pelo final da história – de trás para frente – mas, desta vez, deixaremos o fim no devido lugar. Voltemos ao princípio, dos versos viemos, aos versos retornaremos.

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se “deve” […]. Eu não posso cantar como “convém” sem querer ferir ninguém, palavras são navalhas.

E como navalhas, quando cortam trespassam a carne, ferem a alma. Um corte exposto, a mostrar quem verdadeiramente somos, em nossa real essência, recheada de sentimentos, mais bons que os ruins, é nisto que gosto de acreditar, pois foi isto que nos fez seres humanos, no melhor dos sentidos que palavra tem, o afetivo.

E assim, o poeta vai cortando os próprios punhos enquanto escreve versos de amor, ao acabar o poema, acabará também todo seu sangue, e é assim que um verdadeiro poeta morre, de amor. Mas todos o invejam, porque qualquer outra morte é desperdício de vida, somente por amor vale à pena morrer. E por amor mais ainda valerá viver, nos versos de Thoreau podemos perceber:

Fui para os bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida e para quando morrer, não descobrir que não vivi.

Todos os poemas, todas as canções e todos os romances já escritos, nos provam que o amor existe. Impossível questionar sua existência depois de ouvir as românticas canções de Belchior, ou após ter lido uma peça de Shakespeare. Ainda assim, às vezes duvidamos da existência do amor, dúvida suscitada pelo sofrimento que brota do seu fim. Porém, a grande questão, que é preciso esclarecer, não é se o amor existe ou não, mas sim quanto tempo dura, se é passageiro ou para sempre. Pois, o que nos machuca tanto e gera um trauma dificílimo de superar, é o fato de que o amor acaba, mas não acaba para sempre, o amor é um teorema, Paulo Mendes Campos o descreve em uma crônica:

O amor acabaacaba como se fosse melhor nunca ter existido, em todos os lugares o amor acaba, a qualquer hora o amor acaba, para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto.

Quando um sentimento assim tão ávido e tão intenso se esvai, gera apenas uma única reação, e não se pode esperar outra coisa do organismo a não ser a dor, a sensação de perda, de falta, de vazio. O amor nem sempre é eterno, às vezes acaba, a dor às vezes demora, mas passa.

Para entendermos melhor a essência do amor, a sua origem e tudo que lhe é inerente. Necessitamos de uma fonte de informações realmente nutritiva, dignas de um Banquete:

Antes de mais nada o amor vive sempre na penúria, extremamente carente de suavidade e beleza, rude e seco. Descalço sem teto, dorme no chão, ao relento. Perambula às portas, perdido nas ruas, inquilino da miséria. Em compensação sente ardor por coisas belas e boas, coragem, decisão, energia. Caçador assombroso, tece artimanhas, pensa apaixonadamente, soluciona, filosofa a vida toda, é hábil em sortilégios, em drogas, em arrazoados capciosos. Não sendo de natureza mortal ou imortal, floresce, vive próspero, morre e revive num mesmo dia. Escapa-lhe, entretanto, sem demora, o que alcança, de sorte que amor jamais empobrece ou enriquece.

Se seguirmos a trilha deixada por Diotima e o teorema de Paulo Mendes, compreenderemos, enfim, por nós mesmos, que a vida é uma longa estrada e que, ao longo do caminho nem sempre estaremos acompanhados, e nem sempre os companheiros serão os mesmos, mas nem por isso deixaremos de caminhar, pois o amor é como o sol no céu, às vezes se faz escondido, encoberto pelas nuvens, às vezes radiante, como no mais belo dia de verão.

Entretanto, quando o tempo estiver nublado, prepare-se, reza a lenda que um banho de chuva lava a alma, a tempestade está prestes a chegar, aproveite, renove seu espírito para sentir a vida pulsar novamente quando surgirem os primeiros raios solares.

As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi, para mim, a obra mais linda da história da música clássica, uma junção de música e poesia, não há encaixe mais harmônico. E assim está impresso, no último verso do primeiro poema, soneto número um:

Os relâmpagos e trovões vêm para anunciar a primavera.

Talvez seja por isso que Tim Maia também cantou um dia: Hoje o céu está tão lindo, vai chuva, é primavera!

Eu como poeta e sertanejo que sou, tal qual o galo que canta antes da aurora chegar, solto meu bárbaro brado sobre os telhados do mundo, para não esquecer a tempestade, as flores, o amor, os poetas mortos.

Mais uma vez e sempre todo dia, recomeçar!Que o amor seja eterno, enquanto durar!


Direitos autorais da imagem de capa: Unsplash




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