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“por onde for, quero ser seu par…”

Nesse mês de junho proliferam as emoções e essa é uma frase bastante escolhida pelos apaixonados.



Acho lindas essas frases de espelhamento gemelar que intencionam expressar o amor entre duas pessoas.

Mas vale uma reflexão sobre amor e amor. Um par de vasos, por exemplo, envolve simetria. São dois vasos idênticos. Ambos se espelham um no outro. Igual, igual, igual.

Existem casais assim?


São raros. A própria biologia se encarrega de criar pessoas diferentes. Não há duas pessoas iguais.

Qualquer casal, por mais unido que seja, conserva a identidade bem individualizada. Os gostos. As preferências. A praia e o campo. A novela e o futebol. E sim, o Jornal Nacional, juntos. Se um deles não preferir a Band.

Uma quadrilha, por exemplo. Um bolero de Ravel bem dançado. Um tango em Buenos Aires.
Todas essas musicalidades também envolvem o conceito de par. Um conduz, o outro deixa-se conduzir.


Difícil pensar que esse conceito possa ser aplicado na vida de um casal: você conduz e eu me deixo conduzir. Até porque existem matérias dominadas por um deles, e outras dominadas pelo outro. Quem entende mais, deve ser o condutor. De onde se conclui que a condução se alterna.

O conceito romântico de “par” fica melhor descrito em termos de parceria.

As parcerias se estabelecem quando um ser que pensa e conserva a sua identidade, junta-se a outro ser que pensa e conserva a sua identidade, e ambos convergem o olhar para a mesma direção, e caminham juntos, não por todas as horas do dia, não “por onde for”, mas por tempo suficiente para se separarem, quando um quiser ir ao jogo, e o outro ao cinema, sem que isso se torne um drama ou uma guerra declarada.

Nesse sentido real, profundo, e verdadeiro as parcerias se estabelecem e podem durar até que a morte os separe. Mesmo que um deles goste de sair, bater papo, frequentar festas, e o outro goste de ficar em casa, lendo um livro.


Mesmo que um deles não goste de viajar, e o outro faça viagens regulares a cada ano.

Qual o problema?

O problema existe apenas se você sentir que precisa de um par. Um par para estar o tempo todo ao seu lado. Um par que funcione como vaso ou como partner de uma dança.

Mas o problema não existe se você internalizar o conceito de parceria. Que é muito mais amplo. Que envolve desprendimento. Que abre mão do egoísmo. Que respeita as diferenças.


Você pode ser o meu parceiro, ainda que não seja o meu par por onde eu for. Eu posso ser a sua parceira, ainda que você não seja o meu fiel seguidor. Basta que entre nós haja a confiança mútua de que em todos os lugares, por onde estivermos, conservemos a certeza de que somos parceiros na alegria e na tristeza, convergindo os nossos interesses
e nossos esforços para o mesmo fim.

Nesse sentido, eu não tenho um par. Tenho um parceiro.

Entre nós prevalece o vínculo forte de uma parceria que dura anos, e nos leva a remar o barco na mesma direção, porque dentro dele está a nossa família, o nosso patrimônio, os nossos filhos, e os nossos netos.


Se alguém falar mal dele, eu brigo até a morte para defendê-lo e se alguém falar mal de mim, presumo que ele faça o mesmo. Eu até posso falar, mas não permito que mais ninguém fale na minha presença. Posso, mas não falo.

Ensinei os nossos filhos a amarem-no muito mais do que peço que me amem.

O pai dos meus filhos é o Pai de todos nós, inclusive meu.Não é um modelo a ser seguido. Sei que há outros, mais românticos. Mas posso afirmar que tem funcionado em realidade, e em verdade.

Quem não tem um par, não azede o leite por conta desse conceito romântico.


Você tem um parceiro(a)? Se tiver, comemore!

As parcerias sobrevivem a tudo, até a eventuais separações.

O casamento pode acabar e a parceria verdadeira ser mantida, até que a morte os separe.


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