Precisamos perder mais cedo a vergonha de sermos nós mesmos e de aceitarmos os outros como são…

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Há alguns dias atrás, me deparei com um artigo muito interessante do psiquiatra Daniel Martins de Barros. Ela dizia que educar e dar educação são coisas quase opostas: educar é ensinar como encontrar a verdade, estudar, aprender, compreender e, por fim, ter a habilidade de se autoconhecer; dar educação é ensinar a esconder a verdade.



Por que devemos esconder a verdade? Para correspondermos às regras sociais, sob pena de passarmos vergonha.

Precisamos ensinar aos nossos filhos que não devem dizer que não gostaram de algo, pois é falta de educação. Devem suportar incômodos para não incomodarem aos mais velhos, aos chefes, aos professores, até aos próprios pais.

Não devem rir muito alto, não devem ceder ao desejo de comer algo com as mãos, não devem falar à vontade e sem pensar, porque podem falar bobagens. Não devem se vestir de modo discrepante, devem fingir que não escutam a conversa de outras pessoas e, por fim, devem ignorar a escuta de si mesmos.  Fazer qualquer coisa fora dessa cartilha é vergonhoso, sensação de não pertencimento e de fracasso.

Depois de crescermos com isso incutido em nossas mentes, lá pelos trinta anos, começa a jornada em busca da própria essência. Qual sua missão de vida? Qual sua vocação? O que você gosta de fazer? Inundamos os consultórios de terapia e enchemos nossas mesas de livros de autoajuda.  Ouvimos o termo “ir em busca da criança perdida”, e começamos as sessões de regressão, PNL, coaching, etc.


A mídia está cheia de artigos e registros de conferências, debatendo e questionando o que houve com essa geração e como melhorar as próximas. Caramba! O mesmo profissional que procuramos para acordar a nossa criança interna, também procuramos para pedir Ritalina a fim de adormecer os impulsos dos nossos filhos, já que o comportamento fora do padrão deve ser suprimido!

Não seria melhor cuidarmos da próxima geração para que a “criança” neles nunca se anule? Que tal começarmos a fazer diferente com nossos filhos para que, lá na frente, eles não se sintam tão perdidos de si mesmos quanto os adultos das gerações anteriores?

Quando ficamos mais velhos, após anos de terapia e lavagens cerebrais baseadas nas palavras “perdão” e “gratidão” (são a bola da vez – não significa que eu não concorde, é apenas uma constatação),  nos sentimos empoderados e aprendemos que a vergonha não é fraqueza.


Perdemos o medo de sentir vergonha!

Estamos tão seguros de nós mesmos que o julgamento alheio deixa de ser importante. Não temos mais a necessidade de pertencer a um grupo – muitas vezes até nos rebelamos: “o grupo que me aceite como sou, se me quiserem com eles”! Temos tanta segurança em nós mesmos e no que temos a oferecer, que passamos a ser referências. Retomamos o direito de ditar as regras das nossas vidas e sem perceber, assumimos a responsabilidade de ser um exemplo. Somos aplaudidos! Alcançamos o reconhecimento e o sucesso! Histórias mencionadas em palestras, livros, “case de sucesso”!

Gostaria de entender o por quê de não conseguirmos fazer com que essa sensação alcance as novas gerações mais cedo do que nos alcançou…

Pensando melhor, prefiro refazer minha frase: por que não conseguimos desenvolver metodologias de educação e regras sociais que não exijam dos jovens que eles percam a própria aceitação, a segurança e a essência pessoal durante o trajeto?

Entendo perfeitamente que a vergonha é um mecanismo importante para ensinar sobre o convívio social. Existem regras básicas que precisam ser estabelecidas para que o mundo continue funcionando.

Entretanto, o que proponho é que reavaliemos essas “leis”.  A cada dia que passa, por conta da tecnologia principalmente, a exposição individual fica maior, e isso ocorre proporcionalmente ao crescimento dos julgamentos e da necessidade de se afirmar diante da sociedade. Parecer destemido, confiante e autêntico diante de uma câmera é puro fingimento. Quando as luzes se apagam, TODOS tememos o retorno que aquela exposição vai ter; imagine uma criança ou um adolescente, com as crises e mudanças próprias da idade, ainda lidarem com a supressão de seus instintos e impulsos (é o que fazemos sob o pretexto de educarmos), acrescida do julgamento de centenas de estranhos sobre seu rosto, suas orelhas, sua voz, seu cabelo, suas roupas e, por fim, da sua coragem em se matar…

Aí, lamentamos e questionamos: o que está acontecendo afinal?

Quer a resposta? Se olhe no espelho e responda a você mesmo como você tem agido com os seus semelhantes.

Precisamos perder mais cedo a vergonha de sermos nós mesmos e de aceitarmos os outros como são, sob pena de lamentarmos não termos estado lá nas horas mais cruciais: no momento em que acabamos enterrando nossa essência e quando não temos outra opção, senão a de enterrar a alma e, em muitos casos, os corpos dos nossos filhos.

Em uma palestra recente sobre o sentimento de vergonha, proferida pela Dra. Brené Brown (Ph.D em Serviço Social e pesquisadora da Universidade de Howston), ela faz uma citação a Theodore Roosevelt e é desse modo que gostaria de finalizar esse artigo:

“Quem importa não é o que critica, não é o homem que fica sentado apontando como o outro poderia ter feito melhor e como ele tropeça e cai. O crédito vai para o homem na arena, cuja face está marcada por poeira, sangue e suor. Mas quando ele está na arena, na melhor das hipóteses, ele vence e, na pior das hipóteses, ele perde. Mas quando ele fracassa, quando ele perde, ele o faz com grande ousadia”.

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Direitos autorais da imagem de capa: evgenyatamanenko / 123RF Imagens

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