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Se tiver sorte, talvez me veja de novo…

Leia ouvindo: The Paper Kites- Kiss The Grass



Decidi brincar com o destino, um desafio, um jogo divertido onde o principal objetivo era ver até onde ele iria. Como perder um homem em dez dias chegaria perto do desafio, mas não era filme, era um jogo real. Era prova concreta de que ele poderia ser o cara, aceitando meus erros, acertos e me vendo ali, nua e crua, sem samambaia do amor e apelidos carinhos. Um jogo com o destino e não com o amor.

Eu já tinha conhecido um cara legal, era o nosso terceiro encontro, sem grandes expectativas. Nesse dia optamos por algo mais agitado, um pouco de rock e cervejas. Comecei ali o meu desafio com o destino, se ele fosse o meu cara da sorte, iria querer me ver de novo. Com o pensamento nas alturas e a promessa feita ao coração segui em frente. O assunto da noite foi relacionamento, ex namorados, rolos, ficantes e acasos. Queria ver a reação dele ao saber a minha opinião sobre meus ex namorados e eu sobre as ex namoradas dele, um assunto que teoricamente é proibido nos primeiros encontros. Demos risadas, tomamos mais cervejas, interrompemos aos beijos algumas vezes a pauta da noite. Ele me deixou na porta da casa e lançou o famoso e já aguardado “a gente se vê”. Obviamente que no dia seguinte não esperava mensagens ou ligações, mas recebi um simpático whatsapp.

SE TIVER SORTE TALVEZ ME VEJA DE NOVO - FOTO DE DENTRO

O próximo encontro foi no cinema, assistir “A Culpa é das estrelas” com uma mulher que vai chorar e que você está inicialmente conhecendo é perrengue, e ele aceitou numa boa. Viu meu nariz ficar igual ao da rena do papai noel de tanto chorar e o rímel escorrer no rosto. Era demais para ele, vai desistir (pensei eu). Ele me deu um abraço e disse “linda”. Me deixou em casa e dessa vez não ouvi o “a gente se fala”. Um beijo de despedida e nada mais. É nessa hora que o coração da mulher gela e vem um “já era” no pensamento. É o início de uma agonia sem fim.


Poxa, desafiei o destino dizendo que se ele fosse a minha “sorte” continuaria ali, de braço dado, e para que isso acontecesse eu faria tudo do jeito que eu realmente queria, sendo eu mesma e sem essa história de saídas já programadas com finais em motel. Queria saber se aquele cara que escolhi suportaria minhas manias, assistiria os filmes que eu estava a fim, se falaria de todos os assuntos, se realmente não iria embora depois de descobrir alguma mania ou defeito, como tantos fizeram. Qualé destino?! Se fazendo tudo dentro das “normas” da conquista não estava dando certo, que tal tentar pela loucura? Esse foi o caminho.

Ele me ligou no dia seguinte, queria me ver de novo. O próximo encontro agora, seria na minha turma de amigos. Meu amigos são os melhores do mundo, mas em termos de bagunça, bem, são os melhores também. Será que ele saberia lidar com tudo isso? E o papo? Foi num jantar regado a vinho e uísque que eu vi aquele cara na minha turma, ajudando a lavar louça, brincando e conversando com todos, sem cara feia ou comentários impróprios. O “Volte sempre e cuide bem dela” foi inevitável.


É destino, mas uma etapa sem filtro, sem joguinhos. Eu estava curtindo e queria ele ali comigo sempre. Logo depois de me deixar em casa recebi a mensagem: “Obrigada pela noite, seus amigos são ótimos. Precisamos marcar mais vezes.” Coração aliviado.

O próximo encontro era na minha casa, um jantar preparado a quatro mãos, um vinho, um filme. Ele iria conhecer meu templo, ver minhas fotos antigas espalhadas pelo apartamento, a bagunça do meu banheiro, as roupas no sofá da sala, a minha mesa bagunçada do escritório, as velhas louças herdadas da minha avó, minha mania de mexer a comida do mesmo lado, de colocar sempre manjericão em quase tudo. A hora dele ir embora e me deixar com tudo isso era aquela.

Talvez eu não fosse tudo aquilo que ele esperava, o desastre em quebrar uma taça de vinho só tenha provado que não sou tão jeitosa como a mãe dele possa imaginar ou querer uma nora. Talvez o risoto não tenha ficado bom. A evidente desorganização da minha casa tenha atrapalhado seu lado sistemático e os copos diferentes na mesa tenham feito ele pensar que não sei receber gente para jantar. O vinho poderia ter sido uma péssima escolha, o filme estava chato e aquele silêncio a dois na frente da tv estava me matando. Talvez eu devesse parar de pensar em tudo isso e simplesmente aproveitar o fato de ter alguém legal ali no meu mundo, no meu velho sofá, no apartamento que escolhi para chamar de meu e viver uma vida que é minha. Inseguranças bobas de uma menina mimada que sabe muito bem que desafiar o destino não dá muito certo, afinal, ele pode te levar exatamente onde quer.

Um beijo de despedida bastou para aquela fase da angústia voltar. – Se tiver sorte, talvez me veja de novo, ele disse olhando nos meus olhos, logo depois que o elevador chegou. É, destino, acho que eu realmente não deveria ter te desafiado. Ele já era tudo aquilo que eu queria.

Engraçado que destino também é sorte, e eu estava com a minha. Eu não só vi ele depois, e depois, e depois, depois do depois, como vejo ele quase que todo santo dia. É um tapa na cara, um soco no estômago e uma ousadia dizer que não existe um plano traçado junto com a sorte. O cara legal que você quer ver até onde vai, pode ser também o cara que no meio do caminho vai te mostrar porque todos os outros deram errado e que amor além de escolha, é sorte. É sorte de ter alguém que vai aceitar seus piores defeitos e admirar qualidades que você acha boba, que vai estar  ao seu lado com ou sem nariz vermelho, rímel, base. É sorte demais ter alguém que entra no seu mundo e não se mete na sua bagunça, por um motivo bem simples, não há jogo de amor que esconda aquilo que você realmente é.

Abençoados sejam aqueles que abraçam nossas loucuras, amam nossos defeitos, elevam nossas qualidades e no meio de tudo isso ainda acham bonito acordar ao lado, com cara lavada. Porque o bonito, o bonito não sai com água.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Amor. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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