A tragédia nos faz dar valor ao que realmente importa!

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Um avião caiu e interrompeu bruscamente a vida de quase oitenta pessoas.



Na terça-feira acordamos com a triste notícia de uma tragédia dessas que nos tiram o chão, o céu e as certezas.

A dor e o lamento toma conta de um país que quase nunca vislumbra a morte coletiva. Não temos aqui terremotos, nem tsunames, nem carregamos na nossa história registros de grande genocídio decorrente da guerra pelo poder.

Juntos na tristeza, os que acreditam em Deus e os ateus choram. Nem a convicção de que o acidente é um fato aleatório nem a fé no destino e na continuidade da vida em outro plano apaziguam o sentimento que persegue a espécie humana desde que este se reconheceu por sua cognição: o abismo da incerteza.


Não sabemos o que vira amanhã e nem tampouco se ele vira.

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Imagem: REUTERS/Paulo Whitaker


A fé que apoia a certeza na continuidade da vida não nos salva da terrível verdade: não temos certeza de nada e tudo pode acabar antes que eu termine de escrever este artigo. O pragmatismo de viver em paz sem que se precise acreditar no sagrado e a convicção de que nascemos, crescemos, multiplicamo-nos e morremos como qualquer planta não basta em momentos como estes.

As tragédias nos fazem pensar. Jogam na nossa cara a imensidão da nossa insignificância e fazem cair por terra qualquer razão que não seja a de Fernando Pessoa: “eu sou nada, eu nunca serei nada….”. Desde que eu soube da tragédia eu repito esta frase mantendo vivos em mim todos os sonhos do mundo, entretanto completamente impregnada por esta certeza que tentamos evitar: O ontem já foi, o hoje é o que tenho e o amanhã talvez não venha.

Hoje é o melhor dia da minha vida e talvez seja o último.

Diante da tragédia nos resta responder a nós mesmos: O que faríamos se só nos restasse um dia.

Diante da brusca interrupção dos sonhos daqueles jovens estamos todos nos questionando as nossas escolhas e impregnados por uma vontade imensa de viver tudo o que há para viver.

Depois de ver os destroços em meio à mata estamos todos nos sentindo idiotas diante do apego às coisas que achamos ter.

Lembrei-me daqueles quiosques nos aeroportos ao oferecer o serviço que passa uma espécie de papel filme na mala para protege-la durante o voo e confesso que se eu fosse dona de um quiosque daqueles eu o fecharia e aconselharia os passageiros a deixarem de se importar com as bagagens porque para elas resta apenas duas opções: ou seguirão a regra da imensa maioria e chegarão ao destino ou cairão no meio da mata. Deixemos então de ser idiotas que se preocupam com os riscos na “sansonite”, com as rodas que se perdem nos arremessos de mala para a esteira e com qualquer outro dano.

Desejemos malas cada vez mais usadas e quebradas, desejemos as malas que viajem e não as que permaneçam intactas pela falta de uso ou pelo esdrúxulo uso do papel filme.

Desejemos que possamos usar as coisas que insistimos em ter nesta existência dicotômica chamada vida que de tempos em tempos insiste em nos mostrar o que vale a pena e o que definitivamente não vale.

Amanhã nosso avião pode cair e interromper tudo em um piscar de olhos. Então ficaremos assim “coisados” por uns dias, com este gosto ruim na boca que a incerteza nos causa até que passemos novamente a seguir nesta “matrix” enquanto o avião, os jogadores e as malas vão cair no total esquecimento. A dor que hoje nos bagunça vai ser daqui um tempo apenas a dor da família dos que se foram e se chamará saudade.

O amanhã? Ninguém usou. Ele pode ser seu, ou não.

O que você faria se só lhe restasse um dia? Se a sua resposta não for tranquila, corra enquanto é tempo.

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