Comportamento

Na esperança de ajudar avó com contas atrasadas, menino de 8 anos faz “geladinho” para vender

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geladinho

O caso acabou tomando conta das redes sociais, e muitas pessoas se compadeceram com o trabalho infantil que o menino precisava encarar, abrindo uma vaquinha online.

Considerado um dos mais graves problemas do Brasil, o trabalho infantil tem demonstrado preocupante aumento nos últimos anos, de acordo com Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). No mundo, 160 milhões de crianças de 5 a 17 anos foram submetidas ao trabalho infantil no início de 2020, destes, 97 milhões eram meninos.

Na América Latina e no Caribe, são 8,2 milhões de crianças e adolescentes em situação de trabalho precoce, e a pandemia acabou se tornando um agravante nos últimos meses. Com o acentuado nível de pobreza e com a flexibilização das escolas, muitas famílias se viram impelidas a colocar as crianças para realizar algum tipo de trabalho.

Esse foi o caso de Davi, que com apenas oito anos, acabou se sentindo forçado a ajudar a avó a pagar o aluguel da casa onde moravam. Com dois meses de inadimplência, a família já estava ansiosa, acreditando que poderia perder a residência, ficando sem um teto para conseguirem dormir. Durante uma reportagem, a avó se mostra comovida com a situação e conta um pouco sobre o que fez com que o menino quisesse vender geladinho na rua para conseguir dinheiro.

Dona Rizomar explica que Davi mora com ela desde que nasceu, e que foi abandonada pelo marido em um dos momentos que mais precisava. Com a filha grávida de oito meses, enfrentando uma gestação de risco, ela a procurou, mas o então companheiro disse que só ficaria na casa se ela dispensasse a própria filha. “Ele mandou eu escolher ou minha filha ou ele, então escolhi minha filha, né?”

Com as contas atrasadas e mais bocas para alimentar, controlar os gastos se tornou uma tarefa ainda mais difícil. Mesmo sabendo que o neto deveria pensar em outras coisas, como brincar e estudar, Rizomar explica que ele acabou se comovendo com a situação, decidindo fazer os geladinhos por conta própria para vender na rua.

“Criança tem que estar na escola, estudando né, mas aí ele vê o sofrimento da gente, com dois meses de aluguel atrasado, as contas atrasadas”, explica Rizomar. O menino disse que fazia aquilo pela avó, como forma de ajudar aquela pessoa que sempre esteve ao seu lado. “Quero ajudar minha avó que ele está 2 meses atrasado. Aí eu quero ajudar ela porque ela me ajudou muito, me deu muita coisa e quero fazer o mesmo pra ela”, explicou Davi.

davi neto vende gelinho

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Em novembro do ano passado, apoiadores online abriram uma vaquinha para ajudar Davi e Rizomar, conseguindo mais de R$ 70 mil, valor que garantiu a compra da casa da família. A avó ficou completamente emocionada quando soube quanto dinheiro tinha recebido, e sentiu que poderia, finalmente, organizar as contas e dar melhores condições ao neto.

Pobreza no Brasil

Um levantamento realizado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) constatou que o país atingiu o maior percentual de brasileiros em situação de pobreza e vulnerabilidade social dos últimos 10 anos. Cerca de 47,3 milhões de pessoas encerraram o ano na pobreza, chegando a 22,3% da população.

Apenas no ano passado, 11 milhões de pessoas caíram na pobreza, equivalente a todos os moradores de São Paulo ficando pobres em 365 dias. Cerca de 6,3 milhões viram suas rendas reduzir drasticamente, entrando na extrema pobreza, e 20 milhões de brasileiros nestas condições.

Os que mais sofrem com essa realidade são as crianças e os adolescentes de zero a 17 anos, sendo que, até o fim de 2021, a pobreza comprometia o futuro de 19 milhões de menores de idade, ou o equivalente a 35,6% do total dessa faixa etária.