Comportamento

“Nasci ligada à igreja e descobri que fé e feminismo podem caminhar juntos”

Aos 26 anos, esta jovem relata que sua espiritualidade é construída muito além do que as igrejas pregam. Ela segue a Bíblia como um livro que a liberta, não a aprisiona.



O feminismo é um movimento social que luta para que as mulheres tenham mais oportunidades, que não sejam excluídas devido ao gênero. Dentre várias pautas que abrange, o movimento visa à liberdade da mulher frente à tomada de decisões e luta contra violência doméstica, feminicídio e assédio.

A união feminina possibilitou muitos avanços para a mulher na sociedade. Atividades como votar, trabalhar e ter uma carreira não eram de bom tom, pois a cultura era de que serviam apenas para cuidar dos filhos e do lar. Com muito esforço, estudo e manifestações, a mulher conseguiu chegar ao que é hoje em dia.

É claro que, por ser um movimento grande, várias vertentes começaram a aparecer. Nem todas agradam e, diante disso, o feminismo no geral começou a ser tratado como algo errado, exagerado, desrespeitoso e sem sentido. Por questionar as regras que a sociedade impôs à mulher, também se tornou inimigo da igreja.


Raquel Daniel tem 26 anos e conta seu relato para o Universa UOL. Ela diz que desde pequena sua relação com a igreja foi muito forte, pois seus pais ocupavam lugares importantes dentro da igreja.

Com 7 anos, ela já estava inserida nas atividades, passando a frequentar acampamentos religiosos e socializando com pessoas de outras igrejas. Cresceu no ambiente religioso e conta como foi sua experiência ao conhecer o feminismo.

Raquel conta que, aos 16 anos, se envolveu com um homem 12 anos mais velho do que ela, também do acampamento. Tiveram um relacionamento por três anos, do qual ela lembra de ser totalmente abusivo e prejudicial para seu amadurecimento.


Quando romperam, ela teve acesso ao feminismo e conheceu a doutrina, e começou a perceber o quanto as mulheres eram violentadas tanto fisicamente quanto mentalmente. Além do fato de que muitas sofriam pelo fato de apenas serem mulheres.

Declarou que, depois de seu primeiro relacionamento, passou por dois assédios no ambiente religioso. Isso foi reforçando sua vontade de intensificar a busca e o acesso à teologia feminista, que propõe uma leitura da Bíblia menos literal e mais contextualizada, ou seja, uma compreensão que faça mais sentido para o nosso tempo.

Direitos autorais: arquivo pessoal.


A teologia feminista está interessada em entender Jesus dentro do contexto histórico social, usando a Bíblia como fonte de liberdade, e não um livro de regras, relatou.

Raquel salienta que todas as igrejas se organizam para crescer, e esse poder é dado para um pastor que o usa para controlar os membros. É uma ideia de que só existe um estilo de vida, uma verdade e um caminho, excluindo o que não beneficia a igreja.

Quando se descobrem outras formas de viver e acessar o sagrado e a espiritualidade, automaticamente se torna um alvo de quem está no poder da igreja, diminuindo essas ideias e colocando-as como erradas aos olhos de Deus. Disse que a partir do momento que passou a questionar a doutrina religiosa, líderes da igreja começaram se preocupar com seu posicionamento.


Raquel afirma que dentro da igreja – que segue um comportamento fundamentalista –, só existe uma forma de ser mulher. Aquela que é justa, recatada, que não pode se impor, muito menos ser sensual, recaindo sobre ela a culpa do pecado, demonizando as coisas que não são bem-vistas para o religioso.

Ela declara que, depois de conhecer a teologia feminista, entendeu que sua fé e o feminismo podem caminhar juntos, pois a forma nova como lê o texto bíblico lhe garantiu melhor compreensão dos fatos.

Raquel conta que, de acordo com essa visão que insere e não exclui, as mulheres e pessoas LGBTQIA+ não terão mais medo de se expressar com medo de ir para o inferno. Entender que existe uma pluralidade e várias formas de ser mulher é uma maneira de acolher todas.


Declara que aprendeu a ler a Bíblia na perspectiva feminina, entendendo que o processo de libertação do povo foi protagonizado por mulheres, a tomada de decisão também, e que foi através delas que as mudanças passaram a acontecer.

Finaliza afirmando que é necessário abandonar o medo e ter coragem de reivindicar um espaço de que Deus pode ser uma mulher, uma mãe que é a imagem e semelhança dos corpos femininos.

Hoje Raquel leva essa jornada para que outras mulheres tenham a mesma descoberta que ela para refletir sobre o quanto a fé e o feminismo podem apontar para um mesmo caminho.


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