Carta para um amor que acabou de nascer…

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 O namoro é a certidão de nascimento do amor. É quando ele recebe um nome, um registro, passa a existir oficialmente perante a sociedade. Mas, assim como acontece com alguns recém-nascidos, às vezes a data em que o amor é “registrado” não coincide com a data em que ele veio ao mundo.



O amor é um órfão de pai e mãe, um ser sozinho no mundo. O amor é um sobrevivente à morte de duas pessoas, porque precisamos morrer para amar. Para viver o amor na sua intensidade, entrega e completude é preciso matar o nosso instinto de auto preservação, é preciso baixar a guarda, ficar indefeso, ser uma presa fácil. Para amar precisamos matar nosso lado egoísta, precisamos matar parte da nossa vaidade, porque o excesso dela nos impede de ser um espelho para o outro.

Portanto, encontrado à beira da estrada, sobrevivente de uma colisão entre dois corpos, duas almas, está o amor, órfão, sem registro. Por isso é tão difícil precisar a data do seu nascimento, porque o amor é encontrado na surpresa, no inesperado, no susto, sem ter ninguém que possa contar a quem o encontra sobre a história que o levou até ali. O amor não tem passado.

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É por isso, meu amor, que eu não vou nem posso usar essas poucas linhas para lhe falar sobre tempo, pois além de tentar medir o impreciso, ao seu lado a vida passa na brevidade de um pôr do sol. Não vou usar essas linhas pra lhe falar de “nós”, pois o “nós” nasce junto com o amor, são gêmeos siameses e, para além de não sabermos como e quando ele nasceu, ele se constrói e amadurece  um dia após o outro, então tudo que podemos fazer em lugar de falar sobre o “nós” é vivê-lo e conhecê-lo, descobri-lo  a cada um desses dias e vê-lo crescer, amadurecer; ser hoje uma criança indefesa, amanhã um adolescente rebelde, outro dia um adulto maduro e, em seguida, um “nós” com a sabedoria e a ternura de um idoso que viveu a vida com plenitude e sem arrependimentos.

Não vou falar sobre expectativas e planos para esse amor, porque bom mesmo é viver um sentimento solto, que tem a liberdade de ser e fluir no sentido da nossa conexão, que decida por si só o que quer ser e, dessa forma, nos mantemos sempre abertos às surpresas que ele pode nos trazer sem nos limitarmos ao tédio da previsibilidade e sem semearmos o terreno com frustrações.

Não vou falar sobre o “para sempre”, porque prefiro que só duremos o mesmo tempo que durar o nosso desejo genuíno um pelo outro. E caso o desejo de um de nós sobreviva à morte do desejo do outro, que o sobrevivente saiba usar a sabedoria que o nosso amor adquiriu com o tempo para aceitar e conservar o carinho, o respeito e a admiração por tudo que foi vivido até ali.


Tudo que posso e quero, meu amor, é usar destas breves linhas para falar do que fomos até aqui. E até aqui fomos surpresas – algumas lindas, outras nem tanto -, fomos cumplicidade, parceria, tesão, carinho, cuidado; fomos abrigo um para o outro, fomos colo, fomos parque de diversões, mas também fomos sala de aula. Fomos corpo alma e coração. Fomos entrega, muito mais entrega do que jamais imaginamos. Fomos oceano de carência e afeto um para o outro. Fomos nós em outro corpo. Fomos nós em oposição ao outro também. Fomos encontro, descoberta, conflito e trégua para nós mesmos. Fomos capítulo de um livro ainda por escrever. Esse é o nosso passado e tudo sobre o que posso falar.

Quanto ao hoje, somos uma vida, segundo após segundo. Somos a reverberação de tudo que fomos até aqui e, por isso, somos felicidade. Somos vida, somos novos, somos prazer, e contentamento. Somos um sorriso bobo estampado na cara, somos brilhos nos olhos, somos afeto no público ou no privado. Somos desejo de não desgrudar, somos encantamento ao acordar e ter o outro como primeira paisagem do dia. Somos a aflição da espera pela sexta à noite, somos o desejo de mostrar ao outro os nossos programas, lugares, comidas e amigos favoritos e, também, de ser tudo isso para ele. Somos a mordida no pescoço, a preguiça em levantar da cama, a pipa e a base onde ela se amarra para não sair por aí voando desgovernada. Somos sol e mar. Somos eu e você.

Quanto ao amanhã, não posso dizer o que seremos, mas o que já somos ao olhar para frente: somos desejo, somos página em branco, somos história a ser inventada. E nenhum lugar poderia ser melhor  para inventar minha história do que em você, porque você me transborda e me faz feliz.

Texto originalmente publicado no Superela. – Escrito por Lorena Muniz


Leia mais:  O que é o tal do amor – Ao amor da vida que ainda não conheci

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