Férias sem culpa!

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“Sem apego. Sem melancolia. Sem saudade. A ordem é desocupar lugares. Filtrar emoções” (Caio Fernando Abreu)



Vem aí o final de ano, e com ele muitas energias que afloram pela via dos sentimentos negativos, resultante de experiências que deixaram marcas na alma. Feridas psíquicas que custam a cicatrizar devido ao apego que mantém o indivíduo atrelado ao seu passado.

Foi uma relação amorosa que se não fosse pela imaturidade de ambos, poderia ter dado certo. Ou foi uma decepção com uma amiga que traiu a nossa confiança. Ou ainda, foi uma discussão com um familiar que acabou em relações cortadas há muitos anos.

Para o indivíduo pré-disposto, sempre haverá um motivo para que a energia envolvente da culpa ou da mágoa, mantenha-o sintonizado nas dores de sua alma.


Sintonia que afasta-o dos prazeres da vida. Condição inerente aos indivíduos que libertaram-se do pesado fardo de suas existências, justamente, por deixarem de supervalorizar experiências que resultaram em dor psíquica e níveis de sofrimento.

O apego, traz na sua esteira, a dependência, o ciúme, a posse e a perda, que geram processos obsessivos associados à depressão. É o lado sombrio do indivíduo que deixa de gozar a vida através de momentos que proporcionam prazer e sensação de felicidade.

Apesar do ser inteligente compartilhar a vida na esfera da afetividade com outros semelhantes, a experiência vital, repleta de lições e aprendizados, é única e intransferível para cada indivíduo. Por isso, que embora a tentativa de ajuda seja válida em momentos de crise existencial ou de relação, em muitas situações a tentativa esbarra no livre-arbítrio da pessoa, que prefere continuar no seu mundo sombrio, do que abrir a janela da alma para que penetre a luz da autodescoberta.


A culpa e a mágoa são sentimentos que acompanham os passos do homem no seu caminhar existencial. E quando desfrutamos de momentos especiais, como um período de férias, por exemplo, geralmente carregamos o fardo sem nos darmos conta de que cada um de nós tem os seus erros e acertos durante a jornada vital. Por esse motivo, a complexidade no âmbito das relações afetivas, onde as experiências relacionais acabam por apresentar mais problemas do que soluções. Resultado que revela a heterogeneidade humana como sendo o maior desafio nas relações afetivas.

A maior parte dos casos nos quais alimentamos culpa ou ressentimentos, são experiências que envolvem indivíduos com histórias de vida bem distintas umas das outras, e com carências que ficam camufladas pelas aparências, mas que, inevitávelmente, revelam-se com maior ou menor grau de intensidade durante o relacionamento. Expectativas que podem acabar em mútua decepção e deixar sequelas para o resto da vida.

Portanto, redescobrir-se na criança interior através de sensações e experiências saudáveis que superam as que provocaram dor psíquica e sofrimento, é o grande desafio do indivíduo que busca compreender o outrem através da compreensão de si mesmo.

Focar no aqui e agora, no momento presente que deve ser incondicionalmente vivido, é a forma ideal de valorizar o que deve ser devidamente valorizado por aquele que é o único responsável pelo seu processo vital.

Nesta dinâmica de relações, o outrem, apesar de ser um elemento importante no contexto da vida, é e sempre será um coadjuvante, pois cabe ao ator principal desempenhar o seu papel no palco da existência.

Nesta lógica, resgatar a energia da criança interior saudável, é viver momentos especiais sem culpa de sentir-se relaxado e feliz. É recuperar a sensação de que a vida pode ser lúdica através do ela apresenta de melhor: a expectativa do novo, do diferente. O elemento surpresa que quebra a rotina e nos transporta para as sensações prazeirosas e descompromissadas do mundo infantil.

E o período de férias pode ser acompanhado desta “magia” da criança. É só permitirmos, ou seja, nos darmos o direito de viver o presente de uma forma alegre, descontraída, onde o sorriso espontâneo seja uma marca registrada de nosso eu em processo de libertação das amarras do passado.

Nesta direção, as férias podem representar o primeiro movimento de uma sequência de movimentos imprescindíveis na alteração positiva de um modelo emocional-comportamental que acompanha o indivíduo há muitas vivências no corpo físico. Uma importante mudança, que embora lenta, revela que para renascer não precisamos morrer. Basta-nos, aos poucos, nos desapegarmos daquilo que é inútil para o nosso crescimento.

Por Flávio Bastos

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