A DITADURA DO ORGASMO…

“Queremos poder, às vezes, não conversar, não sorrir, tampouco atingir orgasmos sem prazer algum. Os homens podem, sim, chorar e as mulheres não precisam ficar esperando pelo príncipe encantado, visto que o grande amor de suas vidas muito provavelmente será um plebeu de tanquinho indefinido e grana curta, como eu, como você, enfim, como noventa e nove vírgula nove por cento da humanidade do lado de cá da telinha e das telonas.”

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Novelas, seriados, magazines, filmes, outdoors, programas televisivos, anúncios publicitários, entre tantos outros meios midiáticos, são vitrines diárias e ininterruptas de modelos físicos e de personalidade que atendem a um ideal surreal, incondizente com a realidade da esmagadora maioria dos reles mortais. Magros, cabelos sedosos, bem vestidos, dentes brancos, bons de cama, bem resolvidos, bem remunerados, tais são os estereótipos que inundam nossas vidas de penúria e esgotamento nervoso.

Desde crianças, meninas brincam com barbies esquálidas, de traços delicados e sorriso constante estampado no rosto, enquanto os garotos sonham em se tornar os super heróis com músculos definidos e incólumes aos problemas da vida. O adolescente – coitadinho – desajeitado, tentando lidar com as mudanças físicas e hormonais que não entende e invadem sua vida sem pedir licença, é obrigado a se comparar com as personagens de Malhação, muitas delas protagonizadas por artistas que já saíram há tempos da puberdade – como se identificar com imagens distantes anos-luz do reflexo que se enxerga no espelho?

É trepidante o choque de realidade a que temos que nos submeter, quando percebemos ser impossível correr atrás de todo aquele vigor físico e obter a propalada aparência hollywoodiana, enquanto gastamos horas em transporte público para chegar ao trabalho estafante de mínimas oito horas diárias, cuidamos das contas, da casa, das roupas sujas, das horas extras, do serviço levado para o lar – e ninguém parece estar a fim de nos preparar para isso. Soma-se, ainda, a essas disparidades, o agravante de muitas das personagens televisivas pautarem suas ações por atitudes que fogem à ética e aos escrúpulos desejáveis na vida em sociedade. As implicações nocivas da deformidade de caráter neutralizam-se, nesses casos, sob uma aparência deslumbrante e charmosa, supervalorizando-se, assim, os valores estéticos, em detrimento dos valores morais, sobrepondo-se a beleza física à dignidade e ao caráter.

A separação clara entre mocinhos e bandidos torna-se, pois, cada vez mais tênue, como que nos convidando à transgressão de valores éticos para se obterem os prazeres do consumo e da vida fácil e o sucesso inerente a tudo isso – pois a arte imita a vida, e vice-versa. Como se vê, essa garotada precisa é ser conscientizada, com urgência, nos sofás da sala e nos bancos escolares, de que vida real não é novela, magreza excessiva não é saúde, maldade não é aceitável, sucesso não é salário, sexo não é esporte.

Não obstante, essa perfeição física atrela-se a uma felicidade perene e obrigatória. Tudo e todos tentam nos convencer de que ser feliz sempre e a qualquer custo é uma obrigação, um fim a ser atingido diariamente. Deve-se acordar cantarolando, trabalhar com um sorriso de bochecha a bochecha, convalescer de uma doença com alegria contagiante, menstruar sem indisposição e, se possível, usando uma calça branca, estar sempre com tesão, pois sem tesão, nada de orgasmo – sacrilégio! Aliás, o tesão e consequentes orgasmos – múltiplos, por favor! – devem permear todos os nossos movimentos, seja nos exercícios abdominais, na consulta médica, na faxina do banheiro, na troca do pneu do carro, nas dores do parto, nas reuniões modorrentas, seja no sexo – lembrar que transar menos de uma vez por dia implica fracasso, segundo se sabe lá quem.

Nesse contexto, deve-se procurar o prazer em tudo, sempre, loucamente. É feio xingar, maldizer, mandar tudo às favas, não estar a fim de transar, não estar motivado, estar de saco cheio, uma vez que o yin e o yang não podem se desarmonizar – cuidemos de nossos chacras. É imperativo gozar. Por isso, não raro, na impossibilidade de alcançarmos o sucesso que nos vendem como verdadeiro, acabamos gritando por socorro indevidamente, por meio de falsas soluções escapistas oferecidas pelas pílulas, pelas drogas, pelo consumo desenfreado, pela banalização do amor, pela morte em vida e, nos casos mais extremos, pelo suicídio.

Na verdade, queremos tão somente ter o direito a não nos tornarmos prozacs ambulantes. É preciso que nos deem licença para fazermos cara feia e reclamarmos quando a situação assim o exigir. Queremos poder, às vezes, não conversar, não sorrir, tampouco atingir orgasmos sem prazer algum. Os homens podem, sim, chorar e as mulheres não precisam ficar esperando pelo príncipe encantado, visto que o grande amor de suas vidas muito provavelmente será um plebeu de tanquinho indefinido e grana curta, como eu, como você, enfim, como noventa e nove vírgula nove por cento da humanidade do lado de cá da telinha e das telonas. Porque, fato inconteste, a tristeza e o fracasso também nos definem e completam.




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