O medo de ser livre

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Esta semana recebi uma carta bastante interessante na qual uma pessoa me pergunta se eu tenho alguma pista que explique as razões pelas quais ela está, há tempos, experimentando uma incômoda e persistente sensação de ansiedade misturada à uma insuportável prostração que, segundo comentou, não consegue evitar.

Suporta uma estranha dualidade entre a vontade de criar coisas novas e o sentimento de imobilidade. Relata haver perdido promissoras tendências, antes muito aguçadas, como o desejo de aprender novas habilidades, cantar, dançar, praticar atividades diferentes das quais se habituou.

Sente-se como uma bailarina que perdeu o movimento das pernas. Mas, ainda assim, anseia por dançar.

Penso, cá comigo, que as exigências doentias da vida em sociedade, ou melhor, nesta sociedade comprometida até os dentes com as maiores perversões e psicopatias humanas, tolhe, desde a infância, toda e qualquer forma de movimento inusitado e criativo – justamente por ser ele o emblema da verdadeira e indomável liberdade. Muito perigoso, portanto.

Logo, as relações sociais transformam crianças potencialmente vivazes e inventivas em fantoches com capacidades frágeis e reduzidas. Gente muito boa para ocupar o lugar previsível na linha de produção onde todos repetem os mesmos gestos e sons, exibindo idênticos movimentos monótonos e invariáveis, repetindo juízos, valores, conceitos e pensamentos destituídos de qualquer análise crítica.

Os grupos sociais acolhem tais preceitos de maneira tácita e irrefletida e, sem raciocinar, preconizam esta silenciosa e enfadonha repetição como única alternativa para a  produção humana.

Assistimos, então, a desvitalização do nosso vigor e clamor juvenil pela vida afora.

Somos compelidos a acreditar que este modo de ser é altamente produtivo e benéfico para o conjunto da sociedade.

Mas, evidentemente, não é.

Este jeito de existir nos oferece muito pouco das infinitas possibilidades que teríamos se não fôssemos tão aviltados e roubados do pleno direito de fazer escolhas livres.

E, não. Não estou considerando aquela ínfima e improdutiva minoria que tem acesso a tudo o que é de bom e de melhor e que, consequentemente, tem uma infinidade de escolhas estéreis a fazer. E as faz, claro, com muito gosto.

Falo sobre gente como eu e você, querido leitor. Gente que ainda não se desumanizou o bastante a ponto de não sentir o desconforto representado pela reedição inútil de velhos modelos falidos de relações humanas e sociais.

A psicanálise nos ensina que copiamos todas as nossas conflituosas relações parentais. Mas somos obrigados a reproduzir os papéis que assistimos no decorrer da vida porque também não tivemos acesso ao aprendizado do grandioso e fundamental exercício da crítica. E muito menos da emancipação.

E porque somos transformação contínua, passamos a vida lutando  contra esta condição, cortando asas, subjulgando desejos, calando vontades e escondendo anseios.

Eu proponho que, numa espécie de alegoria, reaprendamos a Dança de Shivaque, intuitivamente, dançávamos quando crianças. Uns prestando muita atenção nos outros, com profundo desvelo e respeito. Conduzindo e sendo conduzido numa mesma direção.

Primeiro, porque ela representaria toda a potencialidade do dinamismo entre a natureza e os seres vivos. Segundo, porque sua finalidade seria a de libertar todos da ilusão e da ignorância representada pelo individualismo – onde dançamos isolados. Terceiro, porque indicaria que o espaço natural da dança se encontra no centro do universo – que reside no coração de cada um de nós.

Assim, este livre e magnífico movimento representaria o que de mais profundo ocorre dentro de nós e que vai em direção aos nossos semelhantes formando uma potente e invencível ciranda.

Por isso, os sentimentos infantis (muito importante de serem mantidos dentro da gente) são tão poderosos e comoventes. Refletem o que de mais puro e verdadeiro trazemos em nossa essência.

A vida em sociedade é que vai corrompendo esta pedra bruta e autêntica. Vamos sendo lapidados pra nos tornarmos meras peças, infelizes fragmentos de uma engrenagem desumana e destituída de emoção. Tudo em nome da nossa necessidade atávica de viver uma ilusória permanência, amiga íntima da monotonia e vizinha fraterna do comodismo.

Fingimos que nos sentimos livres, que temos esperanças no futuro, que acreditamos nas pessoas que nos são próximas e que nos dão o mínimo de amparo do qual acreditamos carecer.

Como disse o indiano Jiddu Krishnamurti: “Onde existe o medo, existe uma busca eterna por segurança”.

Esquecemos da nossa intrínseca capacidade de recriar

Então, precisamos nos atrever e retomar esta energia vital, de nós subtraída – quando não tínhamos nenhuma condição de resistir. E, entendendo queenergia traduz absolutamente toda a nossa capacidade de fazer acontecer, nos entregarmos, com força e alegria, a novos desafios, a conquistas originais.

Acordar o animal divino e sagrado que, neste momento, encontra-se adormecido dentro da maioria de nós.

Viver, afinal, tem tudo para ser uma experiência transformadora e maravilhosa. Desde que duvidemos desta aparente ordem que aí está para nos desestimular.

Se não puder trazer luz para a escuridão da sociedade em que vive, comece iluminando a sombra que existe dentro de você. Mas comece de alguma forma.E não esqueça: coisas extraordinárias só acontecem com pessoas que se permitem ser extraordinárias.

Então…. coragem! É o que de melhor posso lhe sugerir.

Por Heloísa Lima



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* Matéria atualizada em 20/09/2013 às 19:50






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