Quem julga os outros, condena a si próprio!

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“O ser humano nasceu para ser verdadeiramente feliz, por seus próprios meios, amando, odiando, crendo,respeitando, gozando, sofrendo, tornando-se, rindo, chorando, morrendo e renascendo, mas, sobretudo, sendo: sendo alguém com quem se possa identificar, alguém por quem valha a pena se apaixonar, alguém que errou e assumiu, que chorou, mas que sentiu.”



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Construímos nossas significações de mundo basicamente a partir de conceituações de pares que se opõem: frio/quente, bom/mau; alto/baixo; feio/bonito; alegria/tristeza etc. No entanto, à medida que nossa capacidade de abstração se desenvolve, ao longo dos anos, as linhas que separam esses polos dicotômicos tornam-se cada vez mais tênues, diluindo-se frente à nossa visão crítica e aos decorrentes questionamentos típicos de uma mente em evolução. No entanto, categorizar o mundo sob uma visão maniqueísta, separando o joio do trigo, baseando-se tão somente em juízos de valor e/ou ranços culturais e dogmas religiosos parece sobrepor-se à oxigenação desejável de ideias e conceitos já cristalizados, em especial daqueles nocivos a avanços sociais e à busca por um mundo mais harmônico e tolerante.

Nesse contexto, tudo parece dividir-se entre o certo e aceito pela maioria, de um lado, e o errado e condenável, de outro. E, na defesa do idefensável que segue, levantam-se bandeiras majoritariamente moralistas, tradicionalistas, arcaicas e assíncronas, pretensamente alardeadas em favor da moral e dos bons costumes. Afinal, de qual moral e de quais costumes estamos falando? De uma moral castradora e impositiva, que anula do sujeito a capacidade de sentir e de amar alguém? Que tenta eliminar da sociedade, compulsoriamente, cidadãos feios e sujos, mentalmente incapacitados, desprovidos de qualquer dignidade social? Ou seriam costumes baseados na manutenção das aparências, a qualquer custo, mesmo implicando a falta de respeito ao cônjuge, as fofocas veladas à saída das igrejas e cultos, a anulação de personalidades e o enterro dos próprios desejos?


Ninguém, aqui, está eximindo pais e educadores de quaisquer compromissos e cuidados com aqueles por quem são responsáveis. Os mais velhos possuem, sim, o papel de nortear e orientar os seres em formação, aconselhando-os, corrigindo-os e sendo exemplos daquilo que apregoam, mas num discurso afinado com os sonhos do outro, com os desejos do outro, sem se sobrepor ou se antecipar ao projeto de futuro – rascunhado, que seja – dos mais jovens. Ninguém tem o direito de tolher do próximo esse construir alheio, com exceção dos casos em que o outro se envereda por caminhos destrutivos, tais como as drogas, o desrespeito social, o crime, a irresponsabilidade e o descompromisso como um todo. No mais, respeitemos o existir alheio. Os cidadãos, para se tornarem sujeitos, devem caminhar, pisar as brasas, queimar-se, perder-se, para reencontrarem-se de acordo com as suas próprias verdades, mesmo que dolorosamente desconstruídas nessa jornada – uma dor cruel e, ao mesmo tempo, tão vital no processo de amadurecimento e de construção de identidade.

No fundo, o ser humano nasceu para ser verdadeiramente feliz, por seus próprios meios, amando, odiando, crendo, respeitando, gozando, sofrendo, tornando-se, rindo, chorando, morrendo e renascendo – olha só os pares opostos que nos perseguem vida afora -, mas, sobretudo, sendo: sendo alguém com quem se possa identificar, alguém por quem valha a pena se apaixonar, alguém que errou e assumiu, que chorou, mas que sentiu. Guimarães Rosa já alertara que viver é perigoso. Requer coragem absurda a plenitude consigo mesmo; do contrário, esse nosso eu se perderá nas escuridões daquilo que deveria ter sido – e isso, sim, equivaleria à danação eterna.


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