Reorganizando o jardim

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Dia desses você passou na minha frente com o Bóris na coleira, fone nos ouvidos e sorriso na cara. Não, você nem me notou, eu estava saindo da padaria que sempre tomávamos café juntos aos domingos, com um saco de baguetes em baixo do braço e um litro de suco de laranja. Dobrei a direita e você seguiu caminhando e cantarolando a esquerda.



De início, confesso que foi ruim te ver, deu frio na barriga e aperto no peito, depois, já voltando para casa, lembrando de tudo aquilo que estava planejado para vivermos juntos e não vingou, deu alívio e um sorriso chegou junto ao meu rosto. De tudo, não existe raiva, habita em mim apenas uma saudade daquilo que poderia ter sido, mas, por desistência de um dos lados não foi – e nessa hora a gente não pode puxar para si a responsabilidade de abraçar uma relação onde o nosso par não nos abre os braços.

E ai, ao te rever, deu aquela saudade de sair junto, de levar a toalha que você sempre esquecia até a porta do banheiro, de colocar duas cápsulas de café na máquina para que pudéssemos tomar, cada um fazendo o que mais gosta, eu lendo e você assistindo séries pela TV.
Agora, sentado na varanda aqui de casa com os pés apoiados na cadeira da frente, percebo que talvez todas essas saudades sejam minhas e não suas, e sendo sincero me dá um certo mal estar por me sentir assim, esses pesos desnecessários me acorrentam como uma âncora ao mar, onde do meu barco enxergo a terra, mas o agito das ondas e os ventos contrários me impedem de ancorar de forma firme.

Lembrando aqui, confesso que nunca esperei gostar tanto de você e que essa sua independência emocional sempre me deixou de sobreaviso que a qualquer momento a bomba explodiria e o jardim que iria ficar detonado era o meu – eu tinha certeza. Mas, já aproveitando, quero só informar que comprei as pás, o adubo, algumas mudas de plantas e hoje mesmo pego uma bermuda surrada e aquela camiseta que você me deu no último dia dos namorados e nunca gostei de usar, me ajoelho na terra, num misto de penitência e prazer, e começo o serviço de tampar os buracos que foram deixados pelo bombardeio.


Em cada um deles vai nascer algo mais bonito, fruto de um momento e de um esforço – unicamente – meu. Quero árvores grandes e pequenas e que os caules e galhos desta nova fase se ergam de forma que vento algum derrube. Quero por um balanço desses de madeira e corda, com nós bem dados, onde aos finais de tarde eu vou pegar impulso e ficar mais próximo do céu.

Quero plantar muito de amor próprio nesse jardim todo, quero a grama verde e macia, que as folhas e frutos só caiam quando estiverem no tempo certo e que os frutos, ao tocar o solo, germinem em mais árvores e mais vida.

Vou por também uma cerca, sem ser dessas de arame farpado, não quero intimidar visitas e a possibilidade de ferir os outros com as farpas do arame não me acrescenta em nada – confesso. A cerca será de madeira, dessas bem resistentes, está decidido.


O jardim vai voltar a ficar bonito. Eu nunca tive tanta certeza e não haverá praga ou dinamite alguma que possa deixá-lo intransitável. Não, ele não voltará a ser um campo minado. Por ele muita gente ainda irá andar, de amigos a amores e os sorrisos serão fartos, como os frutos de tudo aquilo que a gente planta e rega, ou seja, cuida com amor e coragem – que têm por obrigação ser nossos adubos na vida.

E um dia quem sabe até você volte a passar por aqui e eu te ensine como é que se deixa um jardim bonito e se planta algo, como também te agradeça por ter me sacudido e me mostrado que nada na vida cresce sem adubo, por me fazer entender que para arrumar o jardim não basta só regar e podar o que cresce sem controle.

Para arruma-lo é preciso coragem para sujar as mãos e a roupa, mas também entender que roupa e mãos a gente lava com água limpa e corrente, restando apenas no peito e na mente o prazer de ter plantado e ver germinar de uma nova forma.

 

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Fonte: Escrito por Alyryo Freire via Deu Ruim

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