Um gigante moral

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Nem profeta nem revolucionário, Nelson Mandela mostrou-se um homem fora do comum, um imenso líder político e um gigante moral.



Pelos seus princípios. Pelo seu sacrifício. Pela sua humanidade. Pela sua determinação. Pela sua coragem. Pela sua visão. Pela sua força para perdoar e reconciliar. Um homem íntegro. O combate de Nelson Mandela levou ao triunfo da justiça e da dignidade do homem. E quase sempre com Mandela a aparecer com um sorriso carinhoso.

Da violência ao perdão

É facto que Mandela, nos anos 50 e 60, pegou em armas contra as autoridades e o governo da África do Sul. É facto que organizou ataques à bomba para sabotar instalações do governo desse tempo do apartheid. E que, apesar do desejo de evitar perda de vidas, pessoas morreram em consequência dessas bombas. Foi condenado a prisão perpétua, que resultou em 27 anos de cadeia.
Todos conhecemos a história de Mandela – do longo tempo na prisão à marcha triunfal para primeiro presidente negro da África do Sul, que fez ser democrática e plural.

Objetivo: reconciliação

Quando, em 11 de fevereiro de 1990, saiu de 27 anos na prisão política do racismo institucional, de imediato confirmou a grandeza da sua pessoa ao apertar a mão ao poder que o tinha condenado a prisão perpétua. Afastou qualquer espécie de retaliação sobre quem o quis suprimir, sobre quem impôs a inaudita violência do apartheid, sobre quem ordenou o assassinato patrocinado pelo Estado de centenas de ativistas dos direitos civis, com matanças no Soweto e em Shapeville.  Pelo contrário, Mandela  escolheu a via do perdão para derrotar o mal. E enunciou os objetivos essenciais: libertar, ao mesmo tempo, oprimidos e opressores, reconciliar e instalar confiança.


Pôs toda a gente a confrontar-se com a questão: se ele, que sofreu tanta violência, perdoou, quem sou eu para não perdoar? Foi assim que, por entre muitas emboscadas, sábio a lidar com as desconfianças dos brancos e as aspirações dos negros, hábil a explorar o benefício de entusiástico apoio internacional, guiou o povo sul-africano. Pegou numa nação estilhaçada e criou uma nação unida.

Mandela passou a ser venerado como um deus, mas recusou persistentemente o papel de messias em que muitos o colocaram. Mandela – Madiba, como ficou afetuosamente tratado –  apareceu em todas as ocasiões com a simplicidade e humanidade de um bondoso homem da rua.

Conseguiu o que se julgava impossível: encaminhar a reconciliação entre negros e brancos no país que mergulhava numa infernal guerra de ódio racial, após mais de 42 anos de apartheid com violência que levou à morte de pelo menos 12 mil pessoas. Conseguiu que em uma década a África do Sul tenha passado de nação pária para um lugar influente no plano moral, político, social e económico. A tarefa era imensa, por isso muito ficou por fazer, mas Mandela soube sempre explorar audaciosas visões de futuro


Uma casa nova para os sul-africanos

Nelson Mandela na final do mundial de r√¢guebi

Em 27 de Abril de 1994, milhões de negros votaram pela primeira vez em eleições livres. O ANC, de Mandela, triunfou com 62,6% dos votos, conquistando 252 dos 400 lugares no parlamento. A tarefa, para Mandela, logo a seguir eleito presidente da República, era uma vez mais gigantesca: reforma de uma administração concebida no tempo do apartheid para proteger os interesses dos brancos, criar emprego, proporcionar habitação digna, instalar um sistema de proteção social digno desse nome, um sistema educativo e de saúde para todos. Quando, em 1999, ficou cumprido o mandato presidencial de cinco anos, Mandela tinha uma taxa de aprovação superior a 70%. As fundações e as infraestruturas para o grande país democrático tinham ficado instaladas. Faltava que os sucessores completassem a construção do edifício – e essa é uma tarefa que se tem perdido em lastimáveis derrapagens no rumo.

As outras lutas de Mandela

O prestígio de Mandela consolidou-se ainda mais ao recusar perpetuar-se no poder. Retirou-se da política interna no final de um só mandato presidencial. Concentrou-se então em causas que sendo africanas são também globais. Lançou um combate contra a pobreza, levantando a voz a reclamar dos poderosos do mundo ação imediata: repetiu, com a energia da sua força moral, que enquanto houver fome não há liberdade. Foi a uma cimeira dos países mais ricos do mundo para lhes exigir ação: o combate contra a miséria precisa de ação, não de promessas. Também desencadeou o combate contra a indiferença dos políticos frente à Sida. “Na África do Sul, a Sida é uma guerra em curso”, repetiu Mandela de modo recorrente, ao mesmo tempo que mobilizava meios, de Bill Clinton e Bill Gates aos U2, Peter Gabriel, Amy Winehouse ou Annie Lennox. Políticos, artistas, cientistas e empreendedores, todos tomaram a figura de Nelson Mandela como o líder.

 

Mandela, herói da luta pela liberdade e pelos direitos humanos, arquiteto da África do Sul democrática, reconciliada e multirracial que proporcionou das maiores jornadas de júbilo colectivo e fraternidade que o mundo recorda, referência planetária da tolerância e do perdão, mesmo depois de sair dos palcos onde se impôs como estrela de máxima grandeza,  continuou, com o seu carisma, a tocar o coração de quase toda a gente de todas as cores. Este sedutor Nelson Mandela deixa em herança o seu exemplo. Uma sul-africana branca com uns 30 anos de idade, quando foi à porta do Mediclinic hospital de Pretória deixar uma flor para Mandela, foi interpelada por um jornalista que lhe perguntou: o que é que Mandela representa?  Respondeu com uma palavra que repetiu muitas vezes: “Love”.

 

Texto: Francisco Sena Santos

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