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“Eu só quero acordar deste pesadelo”, diz pai de criança de quatro anos baleada na cabeça

Foto: Reprodução
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O estado de saúde da pequena Alice Rocha, de 4 anos, baleada na cabeça quando voltava da escola acompanhada da mãe, é considerado gravíssimo, segundo a Secretaria municipal de Saúde.

A menina foi ferida durante uma troca de tiros entre milicianos e policiais civis da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), em Curicica, na Zona Oeste do Rio, na tarde desta quarta-feira.

A criança e a mãe pararam para comprar pipoca quando ocorreu o confronto.

Socorrida inicialmente por um primo e levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Taquara, Alice precisou ser transferida para o Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, onde passou por uma complexa cirurgia.

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Direitos autorais: Reprodução

Avó da criança, a técnica de enfermagem Elaine Soares Medeiros de Souza Mariano, de 44 anos, conta que não conseguiu dormir à noite, porque vive “um pesadelo”. Na manhã desta quinta-feira, muito emocionada, ela chegou ao hospital para obter informações sobre o estado de saúde de Alice.

Ao lado de seu filho e pai da criança, o pizzaiolo Lucas Soares Medeiros, de 24, que chorava o tempo todo, ela contou como a neta foi baleada. A menina voltava da Creche municipal Criança do Futuro, ao lado da mãe, a vendedora de salgados Andressa Silva de Oliveira Feitosa, de 22, — que está grávida de três meses — quando foi atingida por um tiro na cabeça.

Elas estavam na Rua André Rocha, a 15 minutos de distância de casa.

— A minha ex-nora me disse que ela parou para comprar pipoca e quando ela olhou, a minha neta já estava caída. Ela (Andressa) não consegue falar muito. Tudo isso aconteceu às 17h e pouco. Esse local fica a uns 15 minutos de casa. A minha ex-nora está em choque porque está grávida de três meses e viu a filha ser baleada — contou a técnica de enfermagem.

Na manhã desta quinta, a família da menina afirmou que os médicos informaram que o quadro é “estável, com os sinais vitais bons e não teve alteração” após a cirurgia.

— A gente sabe que cada passo é importante. Esse é um pesadelo. Mas a minha neta é de muita fé. Ela pede para a gente colocar louvor. Ela sempre pergunta se pode ter três amores: as duas avós e Deus. Ela é uma criança de muita garra e de muita fé. Eu creio que Deus está agindo e ela vai sair dessa — destacou a avó paterna.

O pai da menina disse ter esperanças de que a filha se recupere o mais rápido possível.

— É como se fosse um pesadelo que está sendo difícil de acordar, mas, graças a Deus, ela está estável. Logo, logo ela vai tá em casa com a gente. Eu só quero acordar desse pesadelo — contou Lucas, na noite do ontem, poucas horas depois da filha ser baleada. Ele completou:

— Por toda a comunidade, é uma criança muito querida por todos.

Filha única, Alice e a mãe haviam se mudado para a atual casa há duas semanas, na localidade conhecida como Preguiça, em Curicica. Andressa queria dar mais conforto para a menina e para o filho que espera.

— A gente nunca acha que vai acontecer com a gente. Achamos que é só na TV. Oramos pelas vítimas. Às 19h30 nos juntaremos na Praça da Lincoln para uma corrente de oração em prol da vida dela — finalizou Elaine.

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“Queremos justiça”, diz avó de Alice

A vendedora de salgados Glória Ferreira da Silva, de 54 anos, mãe de Andressa, afirma que os moradores não podem “pagar por uma guerra”.

— (A minha neta) Ela é alegre, animada. Ela é uma princesa. O que fizeram com ela foi uma maldade. O que queremos é que ela saia dessa, por isso pedimos orações. A gente só vê na TV e acha que não vai acontecer com a gente. Oramos pelas vítimas, mas hoje estamos aqui. Estamos fazendo uma corrente de oração — disse dona Glória, que completou:

— Queremos justiça. Isso não pode ficar impune. Seja polícia, milícia, quem fez isso tem que pagar. Não podemos pagar por uma guerra que não é nossa.

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A Polícia Civil informou que os disparos ocorreram quando agentes da Draco foram verificar uma denúncia de extorsão em Curicica. No local, ainda segundo a polícia, criminosos atacaram as equipes, dando início ao confronto.

Uma pessoa foi presa e foram apreendidos um carro roubado e uma pistola.

Andressa da Silva Amaral, mãe da menina, passou a noite no hospital. Durante toda a madrugada, ela usou as redes sociais para pedir orações. Em um vídeo, Alice aparece cantando uma música gospel e Andressa escreveu: “Você não vai desistir. Não vai se entregar. Deus vai agir. E vai te ajudar”.

“Os moradores dizem que foram obrigados a apagarem imagens de câmeras”, denuncia pai

Lucas denuncia que policiais da Draco, após a criança ser baleada, teriam mandado que moradores e comerciantes apagassem imagens de câmeras de segurança que pudessem identificar de onde o tiro partiu. Ele ressaltou que “quem não deve não teme”. Indagada pela reportagem sobre a denúncia, a Polícia Civil não respondeu até a publicação.

— No local, os moradores dizem que os policias mandaram apagar as imagens. Se eles não têm culpa, por que mandaram apagar as imagens? Quem não deve não teme — disse Lucas, que falou sobre a filha.

— A minha filha é uma criança abençoada. Está difícil de acreditar. Ela é a minha única filha. A última vez que eu vi foi no último final de semana. Ela ficava uma semana comigo e uma semana com a mãe. Foi ótimo o final de semana. Ela viu Tik Tok, ficou no computador. Ontem, eu até comentei com o meu irmão que iria buscá-la na escola. Mas não deu. Aconteceu isso com ela. Agora é só aguardar e esperar em Deus. Meu coração está doendo. Mas Deus conforta a gente e vamos sair dessa. Não tive noite. Foi só de angústia.

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