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“Por me casar com uma mulher, ninguém da minha família foi ao meu casamento”

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Ao conhecer Lorrany Figueiredo, que já era mãe de trigêmeos frutos de inseminação artificial, a auxiliar administrativa encontrou o amor e o acolhimento familiar que sempre sonhou.



“Sou filha de pais separados. Eu tinha sete anos quando minha mãe se casou novamente e levou apenas meu irmão para sua casa nova, deixando a mim e a minha irmã com nossa avó, que nos criou.”

“Desde pequena sentia diferença na forma de ser tratada com relação aos meus irmãos. Sempre tinha que lutar mais para conseguir algo ou para ‘ser alguém’. Alguns vizinhos e pessoas da família diziam que quando eu crescesse eu daria muito trabalho.”

“Como criança eu não entendia o porquê. As pessoas me chamavam de moleque, garoto, pirralho e vários outros nomes sempre no masculino. Cresci brincando na rua com meu irmão, três anos mais velho. Era eu e ele para tudo. Nas brincadeiras com as amiguinhas na escola eu sempre era o ‘papai’, ou o ‘marido’ e o policial. Minhas poucas bonecas eram casadas entre elas e tinham muitos filhinhos. Acho que ali, na infância, já era um reflexo do que eu queria ser na vida adulta: casada com uma mulher.”


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Direitos autorais: reprodução Marie Claire.

“Aos 14 anos dei meu primeiro beijo em um menino de escola. Semanas depois, fiquei com uma colega. Lembro que após beijar o menino eu cuspia sucessivamente. Senti nojo e ânsia de vômito. Já ao beijar a menina tive uma sensação única, como se o mundo tivesse parado e eu não quisesse mais sair daquele momento.”

“Parecia que, enfim, eu tinha me encontrado. Falei para minha melhor amiga da época que aquela havia sido a melhor experiência da minha vida. E foi. Me aceitei como uma garota que gostava de outras garotas. Minha primeira relação sexual na vida foi com uma mulher. Tínhamos 15 anos. Nunca transei com homem e nunca nem considerei isso.”

“Aos 16, meu irmão mais velho que eu tanto amava simplesmente parou de falar comigo. Ele ligou para o meu pai que mal conviveu comigo na infância e disse que ele tinha uma filha ‘sapatão’. Me doeu tanto.”


“Não por ser gay, mas pela forma como aquilo foi abordado, de maneira homofóbica e preconceituosa. Na época, ninguém tomou minhas as dores e ficou por isso mesmo. Até hoje meu irmão não fala comigo. Não me aceita por eu viver e amar outra mulher.”

“Sempre gostei de mulheres mais velhas, mais experientes, destemidas, assumidas. Aquelas que pudessem fazer por mim o que ninguém mais faria. Talvez fosse para me encorajar a me assumir completamente. Mesmo eu nunca tendo falado diretamente para minha família, todos sabiam.”

“Enquanto meus irmãos sempre puderam apresentar seus amores para a família e se reunir no fim do ano, eu nunca pude levar nenhuma namorada em casa. Eu tinha que fazer as minhas ‘safadezas’, como eles se referiam à minha homossexualidade, na rua. Em casa não.”

“Por conta de toda essa carência familiar, me entregava de corpo e alma nas minhas relações. Achava que a qualquer momento eu teria aquele amor de ‘contos de fadas’. Quebrei a cara e me sujeitei diversas vezes em situações inaceitáveis.”


“Tive alguns relacionamentos sérios, já fui noiva. Até que, em 2016, aos 20 anos, resolvi sair de casa e viver a minha vida. Me assumi gay e fui morar com a minha namorada. Era como se tivesse me libertado de um peso. Mas morávamos com meus sogros e foi complicado. Durou pouco mais de dois anos e meio.”

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Direitos autorais: reprodução Marie Claire.

“No dia 17 de janeiro de 2019 minha vida mudou completamente. Conheci Lorrany, o amor da minha vida, através de seu canal de YouTube, o Canal da Low. Ela foi a primeira policial do estado do Rio de Janeiro a se casar com outra mulher – a Lidiane. As duas tiveram trigêmeos por meio de uma inseminação artificial.

“Nosso primeiro encontro aconteceu no dia 22 de janeiro de 2019. Éramos ambas recém-separadas. Eu estava em um momento muito difícil e enviei a ela uma mensagem pedindo ajuda para sair de uma depressão. Low me encorajou a amar de novo, me entregar, a me aventurar e a ser feliz como nunca antes. Sem nem ter visto a minha foto, ela me convidou para ir ao cinema e depois à praia com ela. Tudo isso para me ajudar a sair daquela tristeza toda. E foi amor à primeira vista.”


“No terceiro dia eu já estava na casa dela e Low não queria mais que eu voltasse para a minha. Nesse mesmo dia ela já me pediu em casamento. Disse que iríamos imediatamente buscar todas as minhas coisas na casa da minha avó, para onde eu voltei após a separação, e que eu iria morar de vez com ela.”

“Aceitei o desafio e fui sem medo de ser feliz. Assumi o risco de viver com alguém que mal conhecia e que já era mãe de trigêmeos. Quando a conheci, os bebês tinham dois anos. Hoje estão com cinco anos e sou referência quase que integral de mãe na vida deles. Eles me chamam de ‘mamãe Nanda’. Respeito e acho linda a história que a Lorrany criou com a Lidiane.”

“Elas viveram oito anos juntas e se casaram em 2014 no civil. No ano seguinte, decidiram engravidar e Lorrany foi quem gerou os bebês. As crianças têm os nomes das duas mães na certidão de nascimento. Elas venceram barreiras e levantaram um bandeira muito grande contra a homofobia no Rio de Janeiro. Quando os trigêmeos tinham um ano e sete meses, em dezembro de 2017, se separaram.”

“No dia 17 de abril de 2021, após dois anos e dois meses juntas, resolvemos oficializar nossa união. Nos casamos como em um conto de fadas com duas rainhas. Alugamos um belo salão de festas, com direito a uma cerimônia intimista e a benção dos pastores. Parte dos custos foi parcelado no cartão de crédito da Lidiane, ex-mulher da Low. Ela é muito nossa amiga e topou nos ajudar em mais essa.”


“Convidamos somente as nossas famílias e os mais íntimos. Nossa união foi no civil e no religioso. Mesmo eu vindo de uma família muito desunida, pensei que no dia mais feliz da minha vida, o dia do meu casamento, eles poderiam estar lá comigo. Convidei minha mãe, meu pai, irmãos, avó, sobrinha, primos e tios.

“Mas, para a minha total surpresa, tristeza e decepção, ninguém foi. Eles não me deram a menor satisfação. Dias antes, pedi muito para o meu pai biológico entrar comigo na igreja e me conduzir até a minha esposa. Ele nunca me respondeu quando eu falava sobre o casamento. Não tinha ninguém da minha família para me levar até o altar, nem para ter como recordações no álbum de fotos.’

“Quando eu estava no salão de beleza no meu dia de noiva com minha sogra e as madrinhas, mesmo sabendo que nunca fui prioridade para a minha família, fiz questão de ligar para um a um e confirmar suas presenças. Todos disseram que não daria para ir. Ouvi da minha mãe: ‘Parabéns, filha, mas não irei.’ Acho que os outros nem se lembravam que seria o meu casamento naquele dia, também nem se deram ao trabalho de me ligar avisando. Meu mundo caiu ali.”

“Chorei demais, borrei toda a minha maquiagem de noiva. A dor era incontrolável. Me senti uma fracassada, abandonada, parecia que uma faca estava entrando no meu peito. Me senti desamparada e sozinha. Foi o dia mais feliz da minha vida e, ao mesmo tempo, o mais triste e decepcionante. Fui consolada pela minha sogra, que me abraçou e chorou junto. Dona Rosângela sentiu a minha dor e me acolheu como uma mãe. Jamais me esquecerei disso.”


“Meu amado sogro, Roberto Carlos, entrou comigo na cerimônia e foi um dos momentos mais lindos e mágicos que vivi em toda minha vida. Mesmo com o vazio da ausência familiar que tomava conta de mim, a família da Low, que agora também é minha, me encheu de amor.”

“Meu sogro fez lindamente o papel que deveria ser dos meus pais. Ele agarrou no meu braço, me olhou firme nos olhos, me tranquilizava e me dizia o tempo todo o quanto eu estava linda. Entrei ao lado dele, de braços dados e cabeça erguida.”

‘Parece que em 2023 meu irmão vai se casar. Certamente não serei convidada e todos os que não foram no meu casamento estarão lá. Triste realidade. Sei que não foi por causa da pandemia que eles não compareceram. Um mês antes todos estavam no casamento da minha prima, para o qual não fui convidada. Será por que sou lésbica?”

“Sofrer homofobia dentro da própria família é muito triste. Não há motivos para tanto desamor. Sempre fui educada com todos, honesta, trabalhadora, amiga, amorosa e carinhosa com todos para ser tão rejeitada assim. Tenho pai, tenho mãe, irmãos, avó, tios e primos e ninguém compareceu ao meu casamento.”


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Direitos autorais: reprodução Marie Claire.

“O que mais aprendi desta lição é que não dependemos de ninguém para sermos felizes, não morreremos por falta de amor, e que nem toda a ausência familiar te fará ser uma pessoa ruim. Tudo isso só me fortalece como mulher, me faz dar valor aos que se importam comigo de verdade. Também me faz ter mais sabedoria para lidar com o mundo, porque ele ainda é muito homofóbico e preconceituoso.”

“Hoje sou só gratidão a toda família da minha mulher por tanto afeto e acolhimento. Agradeço também a Lidiane por me dar filhos lindos e mais ainda à minha esposa por ter me dado uma família tão linda como nunca tive, por me preencher de amor para que nunca me falte vontade de vencer. Low me deu uma nova chance de saber o que é o amor de verdade, o que é ter uma família unida, daquelas que topam viver juntos para sempre. Com ela aprendi a lutar bravamente para que nenhuma ausência familiar seja capaz de me fazer sofrer e ser maior que todo o amor que há em mim.”


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