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“Tiraram a minha vida”, diz mãe de jovem asfixiada com saco plástico por colega de quarto

Foto: Reprodução
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Em janeiro do ano passado, a designer de moda Thalissa Nunes Dourado, de 27 anos, decidiu deixar a capital paulista, onde nasceu, estudou e trabalhava, para novamente ir morar com a mãe e a avó. A família havia se mudado, durante a pandemia da Covid-19, para Paraty, na Costa Verde fluminense, cidade litorânea e histórica, com cerca de 50 mil moradores e que fica 250 quilômetros distante do Rio.

Elas buscavam qualidade de vida, tranquilidade e também segurança. Onze meses depois, no entanto, a jovem foi morta, de acordo com a Polícia Civil, com um saco plástico na cabeça e com as mãos amarradas pela agente de turismo Vivian dos Santos Lima Tiburtino, com quem dividia a casa.

“Até hoje, quase cinco meses depois, a perda da minha filha continua representando uma dor que sei que será eternamente profunda e irreparável. Sinto espiritualmente que ela foi para um lugar iluminado e está sendo bem cuidada, mas não aceito. O ciclo é nascer, viver e morrer, mas não é possível compreender a perda de um filho. O que me segura ainda em pé é lutar por justiça, mas nada vai me confortar, nem mesmo a prisão. É como se tivessem arrancado minha vida, sobrou uma carcaça, virei um esqueleto humano, um nada. Ao tirarem a vida da minha filha, tiraram a minha.”, disse a mãe da designer de moda, a autônoma Adriana Nunes Dourado, de 47 anos.

Thalissa estudou Moda no Instituto Europeu de Design (IED) em Higienópolis, São Paulo, e fez o trabalho de conclusão do curso em Paris, capital francesa. Desde então, fez especializações e trabalhou como estilista em grifes famosas, como a tradicional alfaiataria Ricardo Almeida, onde participava de pesquisas de mercado e desenvolvia as chamadas peças-pilotos, espécie de protótipos das roupas lançadas pela marca.

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A designer de moda Thalissa Nunes Dourado, de 27 anos – Direitos autorais: Reprodução / Arquivo pessoal

“Além de ter uma postura profissional séria e exemplar, atenta ao horário e às funções, metódica e organizada, ela era uma das mais criativas que conheci no processo de criação. Não tenho palavras para dizer o quanto todos se encantavam com o talento da Thalissa. É inacreditável saber de sua morte tão cedo e de forma tão brutal.”, lamentou a coordenadora de produto Erica Melo, de 38 anos.

Após pedir demissão e se mudar para Paraty, a designer começou a trabalhar dando aula de línguas em um curso de idiomas e também deu continuidade a um projeto antigo: ela desenvolvia peças unissex para sua marca própria, chamada Alba, de moda ecológica, sustentável e acessível. Parte da coleção chegou a ser levada para a Semana Fashion Revolution Paraty 2021, em outubro.

“Dividimos apartamento por dois anos, em 2016, e ela passou a ser a minha irmã mais nova desde então, como se fosse realmente parte da minha família. Thalissa era espontânea, impulsiva e tinha uma vontade de viver grande, agarrava os projetos com força e garra. Como eu sou mais contida, nós nos balanceávamos. Aprendemos muito uma com a outra. Perder alguém próximo por uma fatalidade já é difícil, uma morte violenta e sem motivações é ainda mais difícil de assimilar.”, contou a designer gráfica Stefani Monsú.

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A designer de moda Thalissa com o amigo de infância William Henrique – Direitos autorais: Reprodução / Arquivo pessoal

Amigo de Thalissa desde a 6ª série do Ensino Fundamental, o advogado William Henrique Henriolli conta que, assim como outros colegas, está fazendo acompanhamento psicológico para lidar com a morte da designer de moda:

“Tenho que destacar que a Thali era uma menina incrível, à frente do seu tempo e com um senso de arte indiscutível. Era realmente uma artista, com uma facilidade enorme de se comunicar, inclusive em outros idiomas. Ríamos, chorávamos, compartilhávamos todos os principais momentos da nossa vida. Sua perda gerou um vazio no meu peito e no de todos que conviviam com ela.”

No início das investigações, Vivian chegou a ter a prisão temporária pedida pelo delegado Marcelo Haddad, titular da 167ª DP (Paraty), que concluiu haver indícios suficientes da participação da agente de turismo no crime, e pelo Ministério Público. De acordo com a análise de cerca de 12 horas de imagens de uma câmera de segurança instalada na porta da residência, na Rua Guapuruvu, no bairro Caborê, ela foi a única que esteve no local no momento do homicídio qualificado, ocorrido na madrugada de 5 de novembro do ano passado.

O pleito, no entanto, foi negado pela juíza Letícia de Souza Branquinho, da Vara Única de Paraty. Em seu despacho, a magistrada determinou o recolhimento do passaporte da jovem, a proibição de deixar a cidade, além do comparecimento quinzenal em juízo para justificar suas atividades.

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A agente de turismo Vivian dos Santos Lima Tiburtino que, segundo a polícia, matou asfixiada a designer de moda Thalissa Nunes Dourado – Direitos autorais: Reprodução / Arquivo pessoal

“Em que pesem os argumentos levantados pela autoridade policial e pelo Ministério Público, compreendo que se faz necessária a colheita de outras provas e elementos de investigação a fim de conferir maior robustez à hipótese investigativa levantada, além de inexistir efetivo risco da liberdade da indiciada às investigações, de forma a justificar a medida excepcional da custódia temporária”, argumentou Letícia de Souza Branquinho, solicitando laudos complementares ao Instituto Médico-Legal (IML).

Na última quinta-feira, dia 24, o Departamento Geral de Polícia do Interior (DGPI) determinou que fosse coletada amostra de material genético da agente de turismo, para, através de um exame de DNA, compará-lo com os resíduos encontrados embaixo das unhas da vítima para tentar esclarecer a dinâmica do crime, ocorrido na madrugada de 5 de novembro do ano passado, e fortalecer ainda mais o conjunto probatório do inquérito.

Segundo o exame de necropsia, Thalissa foi vítima de morte violenta, provocada por congestão pulmonar através de uma asfixia mecânica. Na casa em que ela morava com Vivian há cerca de quatro meses não foram encontrados sinais de arrombamento nas portas e janelas, nem tampouco de escalada. Em diligências do Grupo de Apoio aos Promotores de Justiça (GAP) do MP constatou-se que “o local é predominantemente uma área residencial, pacato e de pouco movimento de veículos e pessoas transitando, sendo que o imóvel onde ocorreu o fato possui um terreno baldio e de mata nos fundos”.

Nas filmagens obtidas pelos investigadores, foi possível visualizar que Thalissa chegou à residência — onde já se encontrava Vivian — à 00h34, acompanhada por um casal de amigos que permanecem no local até à 1h15. Os vídeos mostram que, às 2h20 ela saiu, em perfeitas condições físicas, retornando às 3h12. Às 6h15, a agente de turismo deixou o imóvel para pedalar, voltando às 9h37. Às 12h30, uma equipe de profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a casa para recolher o cadáver. A estimativa é que a designer de moda tenha morrido entre 4h e 6h.

“Do ponto de vista da polícia e no entendimento da família da vítima, que vem acompanhando atentamente o caso, existem indícios muito robustos indicando a autoria do crime e mais do que suficientes para ensejar o início de uma ação penal. É isso que a família espera: o início imediato do processo, com a responsabilização devida.”, completou o advogado Rafael Borges, que representa os parentes da designer de moda.

Procurada, Vivian dos Santos Lima Tiburtino não retornou os contatos. Nos depoimentos prestados na delegacia, a agente de turismo negou participação no crime e insinuou que a colega tinha se matado, o que foi descartado pelas investigações.

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