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‘Várias vezes me questionei se era boa nisso’, diz brasileira que pilota o maior avião comercial do mundo

CAPA INT

Para conhecer o mundo, Aline Borguetti batalhou até se tornar piloto no maior avião comercial do mundo.



“Eu sempre quis viajar e morar fora, mas era algo tão distante da minha realidade. Venho de uma família simples de Mauá, no ABC paulista, e desde os 14 anos trabalhava para ajudar em casa. Quando eu tinha 17 anos, fiz o ensino médio com técnico em turismo e uma professora, que era comissária de bordo da Vasp, disse que eu tinha perfil para a carreira.

Em casa, falei com a minha mãe e fomos ver o curso. Só que eu nunca tinha pisado em um aeroporto, muito menos andado de avião.

Decidi fazer o curso, mas era caro. Eu voltava a pé da escola para economizar a grana da passagem, a minha tia pagou a maquiagem que tem que levar e o meu avô, o exame médico. Comecei a fazer o processo seletivo da Gol e Tam, mas houve aquele acidente de Congonhas, então desistida Tam. Em 2007, com 18 anos, a Gol me chamou.


Lembro que quando meus pais me levaram em Guarulhos, eu senti muito medo e disse que não queria ir mais.

Minha mãe abriu a porta do carro e disse: “Vai com Deus! E foi embora”.

Eu gostava de ser comissária, mas sabia que ainda não era o que eu queria. Como eu tinha um bom espanhol, me colocaram para fazer voos na América Latina, que eram mais longos, então, eu aproveitava para ir na cabine e conversar com os pilotos. Sendo muito curiosa, comecei a perguntar sobre como funcionava a cabine. Um piloto disse que eu poderia ser uma, mas pensei “não tenho condições financeiras”


Até que um dia me chamaram para fazer um voo experimental. Quando eu decolei o avião, pensei: “agora, lascou”. Era uma sensação tão especial. Mesmo morrendo de medo, foi um êxtase.

O curso de piloto, porém, não cabia no meu bolso. Além das aulas teóricas, tinha que pagar pela hora/aula de voo, as quais iam encarecendo à medida que ficava mais complexo. Eu economizava tudo o que podia para fazer as aulas enquanto conciliava com o trabalho de comissária. Era muito puxado…

Em 2010, larguei tudo. Decidi que precisava aprender inglês e fui para a Austrália, onde fiquei um ano. Quando voltei ao Brasil, retomei o curso de piloto e o emprego de comissária, desta vez na Azul, e também comecei a dar aulas de inglês e de aviação.

Dentro da Azul, fiz minha estreia de copiloto em 2013 em uma seleção interna. Foi muito recompensador. Valeram as noites que não dormi, que emendava voos de madrugada com os estudos… Pensei em desistir em vários momentos, porque era muito difícil ter que balancear.


A escala de comissária já era complicada. Às vezes, eu chegava tão cansada para as provas de piloto que não passava. Várias vezes questionei: Será que sou boa nisso?

Tive muitas pessoas iluminadas no meu caminho. Já outras me desestimulavam, dizendo que eu não levava jeito para piloto. No começo, eu ia para quarto chorar. Mas a gente vai ficando forte, cria casca.

Meu pais fizeram toda a diferença. Eles não podiam me ajudar financeiramente — ela era professora e ele, pedreiro — mas eram o meu suporte, faziam tudo em casa para que eu pudesse estudar. Quando eu tinha que acordar às 4h, lá ia a minha mãe fazer um café com pão para mim. Ela dizia: ‘você vai estudar, ser dona do se nariz e não vai passar pelo que passei’.

Eu voei na Azul de 2013 a 2017 como copiloto. Um dia a Hong Kong Airlines foi ao Brasil para fazer uma captação. Eu tinha tirado o dia de folga, porque era aniversário do meu irmão. Nem sabia onde ficava Hong Kong no mapa, mas acabei indo. E não é que passei? Falei: ‘Eu vou, sempre quis morar fora’.


Só que o começo foi horrível. Os métodos de ensino e o jeito que tratam os pilotos era bem mais rude. Também sofri muito preconceito por ser mulher e solteira na Ásia.

As pessoas lá me questionavam porque eu tinha idade para casar e estava solteira, e então seria mais difícil arrumar marido e cumprir a minha “missão de mulher”.

A alimentação também era complicada, estava sempre com intoxicação. O que aliviou foi fazer amigos brasileiros e, depois do choque, passei a gostar muito de Hong Kong, onde morei por dois anos e meio.

Lá não é comum ter piloto mulher, então toda a vez que chega uma eles olham com estranheza. Me sentia observada o tempo todo. Mas quando os comandantes começam a te conhecer, isso diminui.Na verdade, todo estrangeiro piloto sofre muita pressão, isso não é apenas com as mulheres. A parte boa é que eu conheci muitos lugares, alguns que nunca imaginava, como o maior santuário de coalas no mundo ou as Maldivas.


Em 2019, fiz uma seleção na Emirates em 2019 para pilotar o Airbus 380. É o maior avião comercial do mundo, com 600 passageiros, bar, spa, chuveiro, dois andares, é enorme. Com isso, fui morar em Dubai. Diferentemente de Hong Kong, não tive preconceito pelo fato de ser mulher. O piloto brasileiro tem fama lá fora de ter uma base de qualidade.

Por exemplo, só pode engravidar depois de três anos na empresa, senão é demitida.

Mas aí veio a pandemia e desligaram vários pilotos porque os voos pararam. Como os voos são internacionais e dependem do turismo, precisamos que os países abram as fronteiras para ter fluxo de passageiros.

Enquanto isso, dou aulas no simulador de uma escola em Dubai. Neste momento, não vale a pena voltar para o Brasil, porque minhas licenças são daqui e lá houve muitas demissões. Aqui, levo uma vida normal, moro com meu namorado sul-africano, o que antes era proibido, sigo as regras deles e aguardo poder voar de novo.


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