Enfrente, em frente

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Ouça. Apenas ouça menina, vamos primeiro tentar colocar os pensamentos em ordem, juntar os pedaços espalhados pelo chão e tirar o pó das janelas. Com tanta escuridão é bem mais difícil arrumar a casa, e olha que um árduo trabalho nos espera. É muita poeira já encrostada pelo tempo, paredes mofadas, móveis apodrecendo. Toalhas, cortinas e tapetes parcialmente devorados por traças. E essas caixas? O que há nelas? Objetos? Lembranças? Dores? E esses cacos de vidro espalhados por toda a casa? Vejo sangue em seus pés, estão feridos. Como pode insistir em caminhar pelos corredores de pés nus? Não vejo flores, não vejo quadros, não ouço nada além do som dos estalos das tábuas, já desgastadas pelo tempo. Não há luz, não há vida. Não há como sair, não há como vender ou tirar férias em outro lugar. Não existe como mudar-se para outra casa nova e intacta. Você pode destruí-la ou reformá-la. Só existem esses dois caminhos. Sim. É talvez uma das piores prisões que exista, não há para onde fugir, são algemas psíquicas.



Continuar aí do lado de fora não vai resolver, apenas agravará o problema, as traças continuarão a corroer as estruturas, a poeira vai encobrir ainda mais as janelas e a escuridão será como um fantasma imortal, companheiro de seus dias amargos. A falsa solução que você encontrou para esconder do mundo seus pés sangrando e sua casa desmoronando já não convence mais a quem quer que seja. Essa pintura barata que você insiste em renovar e esses adornos que remetem ao fracasso já não convencem mais de que no interior desta casa possa existir um lar.

Aquele lar que há anos você procura… O colo de mãe, o abraço de pai. Percebe que essas mesmas necessidades acompanham você até hoje. Aquela sensação confortante de ser aceita como é, ser amada e ao menos um pouco reconhecida pelo mundo a sua volta. Sinto informar menina. O tempo passou depressa, veja no espelho a verdade refletida, se é que você consegue olhar para ele, mas se tiver a coragem de encará-lo, apesar de todos os fantasmas que ele carrega, vai perceber que o problema não está “lá fora”, e sim, em você mesma. Você sabe o que fazer, como fazer… O que exatamente está esperando?

Parece difícil? E é! Vencer fantasmas do passado, fortalecidos no presente é a mais árdua batalha que você enfrentará, mas adiá-la será como condenar-se eternamente ao abismo. Menina, suba logo ao sótão, abra as caixas, enfrente o que vier, arrume curativos em seus pés machucados, procure um bálsamo para essas feridas expostas. Não se deixe assim, não se abandone tanto, deve existir em algum cômodo da casa o que restam de forças e esperanças, não deixe de procurar.


Não desista de você, menina.

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