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Obrigada por ir embora!

Oi, tudo bem?! Por aqui tá tudo tranquilo, mas preciso escrever.



Por favor, não tente adivinhar o motivo dessa carta, já não sou mais tão previsível. Acho que você se espantaria se soubesse das mudanças que ocorreram depois que você se foi. E não falo dos móveis ou do meu endereço.

Falo de tudo que ficou fora do lugar, falo da bagunça que você sempre fez e nunca ficou pra ajudar a arrumar. Falo do caos que meu peito abriga(va), em silêncio. Falo de tudo aquilo que deixamos de lado. Inclusive eu.

Lembro que você sempre teve mania de ver por trás dos meus escudos, conseguia me arrancar de qualquer esconderijo, mas praticamente me obrigava a voar contigo, mesmo quando eu julgava não estar preparada. Foram lindas as tardes que passamos entre nuvens, devo confessar, mas preciso deixar outra coisa muito clara. Muitas das vezes eu não estava pronta e, hoje, são profundas as minhas cicatrizes, são inúmeras as lembranças de voos mal sucedidos.


Há pouco aprendi a voar acompanhada. O medo dos tombos que tomei ao teu lado me impedia de, sequer, tentar de novo. Mas tentei mesmo assim. Confesso, me esfolei no chão algumas vezes, ralado em cima de ralado, cicatriz em cima de cicatriz. Inúmeras tentativas de fuga depois e, finalmente, consegui alcançar as nuvens. Seria errado dizer que foi sem esforço. Sabe, depois de você foi preciso muito esforço pra tudo. Pra respirar antes de pirar. Pra confiar antes de me entregar. Pra relevar antes de criticar. Pra calar antes de gritar. Pra enxergar além de tantos defeitos que você nunca se cansou de me apontar. Principalmente, foi preciso muito esforço para (re)aprender a (me) amar.

Sonhei contigo outra noite. Nada daquele drama mexicano de sempre, dessa vez foi leve. Tua chegada foi sutil, mas teus passos eram apressados, teu cabelo estava diferente e teu sorriso tentava transparecer felicidade. Mas eu também vi teus olhos. Em nada mudaram. Me imploravam um socorro silencioso. Gritavam saudades. Choravam histórias que deixamos de viver por puro orgulho. Olha eu, falando do que você mais carregava, no pingente do colar e dentro de si. Sim, também fui orgulhosa ao te assassinar nos meus dias. Mas foi preciso. Se hoje o orgulho também faz morada em mim, eu devo parte disso à você. Sabe, descobri que não é de todo ruim. Sendo assim, essa carta também é uma forma de agradecimento.

Por todas as vezes que você sumiu e silenciou. Obrigada. Aprendi, assim, na marra, a ter tempo de sobra pra analisar meu reflexo nublado no espelho e apontar tudo que precisava melhorar. E melhorei. Aprendi a ser sol. Só.

Por todas as vezes que te esperei e você não veio, muito obrigada. Descobri, então, a beleza de chegar na casa vazia, depois de um dia exaustivo de trabalho, tomar um bom banho, vestir um camisão daquela banda que você detestava, deitar no sofá inteiro pra mim e degustar um vinho delicioso, com a melhor companhia possível. A minha.


Agradeço, também, por cada dedo apontado em minha direção, cada ofensa e cada tombo que me fez levar. Foi sozinha, machucada, desiludida e aos prantos que eu fiz a maior descoberta de todas: ninguém precisa de quem não quer ficar. Aprendi com a tua ausência que muito antes de querer alguém é necessário amar o que se tem, apreciar cada segundo de solidão, cada minuto de silêncio e cada espaço vazio para, somente depois, com muito cuidado, abrir as portas. Da casa ou da vida.

Essa carta é, também, pra contar que depois que você se foi eu mudei de endereço, mudei de cidade, mudei de companhia, mudei os bares e os ares. Mas eu não mudei, ainda sou a mesma. Eu só melhorei. Eu amadureci. Aprendi, talvez um pouco tarde, a colocar em prática o tipo de amor que mais vale a pena sentir. O próprio.

Obrigada por não ficar.

Ass: A menina que se fez mulher sozinha.


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Escrito por Giselle F.

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