Sobre a cereja do bolo

6min. de leitura

– Oi!
– Oi, tudo?
– Tudo!
– E aí você é solteira?
– Sim.
– Há quanto tempo?
– Uns dois anos, mais ou menos.
– Hum, mas porque?
– Porque sim, oras!
– Que triste, você precisa de um namorado!
– Eu? Quem disse? Eu sei bem do que preciso, e não é disso. Não agora!



Os diálogos eram geralmente assim. Quando não terminavam com um:

– Nossa! Coitada, né? Está solteira há uns dois anos, o que será que aconteceu?

Será que ela é chata demais? Será que ainda gosta do ex? Será que está com alguém e não quer contar? Será que tem algo de errado com ela?


Não minha gente, não tem nada de errado com ela, ela não é chata demais – talvez seja um pouco -, ela detesta o ex, não está com ninguém, ela só quer ficar sozinha, algum problema?

Que mania é essa de achar que a gente vive com o propósito de encontrar alguém – sou um animal por acaso que só pensa em acasalar? – , que mania cafona essa de que a gente nasce destinado a constituir família rápido – quanto mais melhor, seja um ramster garota -, que comparação é essa de solteirisse com tristeza ou doença?

Que mania é essa de achar que todo mundo precisa de alguém pra chamar de seu?


Você acha mesmo que as pessoas estão solteiras por opção dos outros sempre? Acha mesmo que elas não teriam a capacidade de manter relacionamentos por conveniência, como o da maioria de vocês?

Você realmente acha que essas pessoas estão tristes por estarem solteiras? 

É claro que não.

Tem gente – e digo muita gente – que está solteira porque quer, por sua única opção – não dos outros – e assim vai ficar, até quando achar que deve.

Nem todas as pessoas dependem de alguém pra ser feliz, nem todas precisam de um par pra se sentirem vivas, tem gente que já é completa, tem gente que já é feliz, sabia?

Ohhhhhhhhhhhh!

Escutei por muitas e muitas – cansativas – vezes aquelas perguntas das titias nos almoços de família, aquelas que em três perguntas tentam desbancar sua vida amorosa inteira, sabe?

E os namoradinhos? Você não vai casar minha filha? Quanto mais tarde pior de encontrar alguém, sabia?”

Alguém aqui perguntou se é isso que eu quero?

Alguém aqui quer saber quais são minhas prioridades, antes de acreditar sinceramente que as suas prioridades são corretas e que deveriam ser seguidas?

Desculpe se não tenho 3 filhos, um gato, um cachorro e um casamento de anos, aparentemente perfeito. Mas não deu, minha cara de pau não era suficiente.

Será que as minhas prioridades podem ser diferentes?

Posso sonhar ter uma carreira brilhante, me formar na faculdade, conseguir um trabalho bom, viajar por aí e aproveitar muito a vida, antes de casar e ter filhos? Será que é crime?

Poxa, nunca dependi de alguém pra ser feliz, e não acredito que exista a minha metade da laranja, o meu chinelo velho, a goiabada do meu queijo, sabe? Não, isso não é triste, nem pensar.

Não quero ser como você, que não sabe viver sozinha e que troca de relacionamentos como troca de calcinha. Não quero ser como você que está em um relacionamento falho há anos, mas que tem medo de começar de novo.

Não quero ter que suportar coisas que não gosto só pra não perder uma vida boa. Não quero ter um relacionamento seguro devido aos filhos. Não quero passar dias chorando após brigas constantes e não ter coragem pra colocar um ponto final onde já não se tem mais futuro. Não quero se for assim.

Ao contrário da maioria, não estou desesperada pra encontrar alguém, nem estou doente por estar solteira, já tenho tanta gente na vida, gente realmente importante – meus amigos, minha família, cachorro, gato e papagaio – que não me completa, e sim me acrescenta. É desse tipo de gente que estou falando, e é só esse tipo de gente que vale a pena procurar.

Não nego, um dia espero encontrar alguém pelo caminho, mas nem pensar em metades de laranja, queijos de goiabadas e chinelos velhos. Qualquer dia encontro uma cereja do bolo, sabe?

Ela não é metade de nada, nem precisa estar ali para o bolo existir, mas ela dá o toque final, era ela que estava faltando.

 

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Escrito por Alessandra Menegaz – Via CATWALK

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